Análise técnica aponta cenário crítico na segurança viária

Acidentes, mortes e feridos graves em rodovias federais alcançam patamar recorde em 2024

Por Gustavo Queiroz

- dezembro 20, 2025

Estudo de Acidentes em Rodovias Federais no Brasil

Um estudo técnico abrangente, elaborado pelo Núcleo de Infraestrutura, Logística e Supply Chain da Plataforma de Infraestrutura de Logística de Transportes (PILT) da Fundação Dom Cabral (FDC), revela um quadro de deterioração significativa na segurança das rodovias federais brasileiras. A análise, que abrange o período de 2018 a 2024 e emprega uma metodologia robusta para garantir comparabilidade, constata que o ano de 2024 registrou os maiores volumes absolutos de acidentes, vítimas fatais e feridos graves desde o início da série histórica monitorada.

Para estabelecer um padrão analítico consistente, a pesquisa utilizou dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), focando exclusivamente em trechos rodoviários com volume médio diário anual (VMDA) igual ou superior a mil veículos. A construção do modelo considerou 72 análises em diferentes dimensões, permitindo recortes detalhados por tipo de acidente, classe de veículo, geometria viária, horário, condições meteorológicas, entre outros parâmetros. A fundamentação terminológica seguiu a norma ABNT NBR 10697:2020.

A trajetória dos números absolutos evidencia uma tendência preocupante. Após uma contração atípica em 2020, primeiro ano da pandemia de COVID-19, com 48.416 ocorrências, os totais anuais retomaram trajetória de crescimento. Em 2024, foram contabilizados 56.117 acidentes, o maior patamar do período. Paralelamente, o ano também marcou o ápice em gravidade, considerando 4.995 mortes e 15.916 feridos graves, contra os 13.395 feridos graves registrados em 2020, o menor número da série.

Para anular o efeito confundidor do volume de tráfego e permitir comparações técnicas válidas entre diferentes vias e períodos, o estudo da FDC calculou dois indicadores-chave, incluindo a Taxa de Acidentes (TAc) e a Taxa de Severidade de Acidentes (TSAc). A TAc padroniza o número total de ocorrências pelo fluxo de veículos. Já a TSAc, um indicador mais sensível, aplica ponderações de gravidade a cada acidente (sem vítimas, com feridos, com vítimas fatais) antes da padronização pelo volume.

A análise dessas taxas confirma que o aumento não é meramente atribuível a um possível incremento na frota circulante. Entre 2018 e 2024, a TAc apresentou uma trajetória geral de crescimento, evoluindo de 1,97 para 2,34. De forma ainda mais reveladora, a Taxa de Severidade (TSAc), que melhor captura o custo humano dos sinistros, também escalou, saindo de 9,02 em 2018 para 9,88 em 2024. Este movimento ascendente de ambos os índices sinaliza uma piora intrínseca nas condições de segurança viária.

A distribuição dos acidentes no território nacional não é homogênea. As rodovias BR-101, BR-116 e BR-381 consistentemente se destacam como os corredores com maior número absoluto de ocorrências, uma combinação direta de sua primordial relevância logística, tráfego intenso e desafios infraestruturais inerentes. Quando analisada pela lente da Taxa de Severidade (TSAc), outros trechos, potencialmente com características geométricas ou operacionais mais críticas, ganham proeminência no ranking de periculosidade.

O estudo traçou um perfil multifatorial dos acidentes. A análise por tipo de pista mostra que mais da metade (52,38%) dos sinistros ocorre em vias de pista simples, seguidas por pista dupla (39,53%) e múltipla (8,09%). Em relação ao traçado, as curvas, que representam um desafio dinâmico, concentram a maior fatia da severidade. A distribuição temporal indica uma concentração diurna (54,70% em 2024), mas com uma fatia noturna significativa e de alta letalidade (35,06%).

A tipologia da colisão é outro fator crítico. Colisões frontais, embora não sejam as mais frequentes em número absoluto, são desproporcionalmente severas, respondendo por 18,33% da Taxa de Severidade total. Colisões traseiras vêm em seguida, com 15,60% da contribuição para a TSAc. Quanto aos veículos envolvidos, caminhões-tratores (conjuntos de grande porte) aparecem associados a uma severidade significativamente acima da média.

A pesquisa da FDC avançou na análise de interações complexas entre variáveis. Condições meteorológicas adversas, como chuva, não necessariamente aumentam a frequência total de acidentes na amostra analisada, mas alteram substancialmente sua natureza, elevando a probabilidade de ocorrências específicas como saídas de pista. A relação entre fase do dia e tipo de pista também é elucidativa: a noite em rodovias de pista simples apresenta um índice de severidade agravado.

A análise multivariada da Taxa de Severidade (TSAc) permite identificar combinações de fatores de risco. Por exemplo, a interação entre tipo de veículo (como caminhões) e traçado viário (curvas) revela pontos de tensão específicos no sistema. Da mesma forma, cruzar o dia da semana com o tipo de veículo expõe padrões operacionais diferenciados para frotas comerciais e de passeio.

Os dados consolidados pela Fundação Dom Cabral pintam um retrato técnico inescapável, revelando que a segurança nas rodovias federais brasileiras de alto fluxo está em declínio. O recorde absoluto de vítimas em 2024, corroborado pelo crescimento das taxas de acidente e de severidade ajustadas pelo tráfego, aponta para uma crise multifacetada. Os resultados sugerem a confluência de fatores que vão desde características intrínsecas da infraestrutura (pista simples, traçados curvos) e da operação (mix de veículos, tráfego noturno) até possíveis deficiências em fiscalização, comportamento do condutor e manutenção viária.

O estudo, ao fornecer uma base de dados segmentada e robusta, se coloca como uma ferramenta essencial para a formulação de políticas públicas de segurança viária baseadas em evidências. A identificação precisa dos trechos mais críticos, dos horários de maior risco e das combinações de fatores que mais contribuem para a severidade dos acidentes direciona intervenções pontuais e eficientes, que vão além de medidas genéricas. A reversão deste cenário demandará ações coordenadas e investimentos direcionados, tendo como guia análises técnicas profundas como a desenvolvida pela PILT/FDC.

Metodologia

O estudo utilizou dados abertos da PRF (2018-2024) e do DNIT (volumes de tráfego). A análise restringiu-se a trechos com VMDA ≥ 1.000. Foram calculados indicadores de Taxa de Acidente (TAc) e Taxa de Severidade de Acidentes (TSAc), seguindo protocolos técnicos para neutralizar o efeito do volume de veículos e ponderar pela gravidade. A análise incluiu 72 recortes multivariados.

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