A nova rota da celulose recebe R$ 2,8 bilhões em trilhos

Dos trilhos em Inocência que formam um novo corredor logístico à parceria com o Reino Unido para a troca de conhecimentos estratégicos

Por Gustavo Queiroz

- fevereiro 17, 2026

Obras da nova ferrovia de 47 km já começaram em Inocência

O sol de fevereiro incide impiedoso sobre a poeira vermelha de Inocência, a 360 quilômetros de Campo Grande. Mas no horizonte plano do leste de Mato Grosso do Sul, o que se desenha não é mais apenas a silhueta do gado e do eucalipto. É o espectro de aço de uma transformação logística. No início de fevereiro, o chão foi oficialmente rompido para dar lugar à mais nova aposta da infraestrutura nacional, uma ferrovia shortline de 47 quilômetros para propulsionar o escoamento da celulose brasileira.

Com um investimento de R$ 2,8 bilhões, o traçado que ligará a futura megafábrica da multinacional chilena Arauco à robusta Malha Norte é uma obra de engenharia de precisão em um país mais acostumado a discutir a falta do que a chegada dos trilhos.

Saindo da unidade industrial da Arauco, os trens, formados por composições monstruosas de até 100 vagões, encontrarão o trilho da Malha Norte e descerão rumo ao Porto de Santos, de onde a celulose seguirá para os mercados mais ávidos do planeta, tais como Ásia, Europa e América do Norte. A capacidade projetada é de 3,5 milhões de toneladas por ano. “Sabíamos que o projeto da fábrica exigiria soluções robustas”, afirmou Carlos Alberto Altimiras, presidente da Arauco Brasil, durante a cerimônia. “A ferrovia não é um complemento; é um dos principais pilares estruturantes.”

Para Mato Grosso do Sul, que já responde por 35% de toda a celulose exportada pelo Brasil, equivalentes a praticamente 7 milhões de toneladas embarcadas em 2025, gerando uma receita de US$ 3,11 bilhões, os trilhos são a garantia de que o posto de líder não será apenas mantido, mas ampliado. A curto prazo, a promessa é de mil empregos diretos apenas na implantação da via. A médio prazo, a consolidação de um corredor de exportação que tira caminhões das rodovias e joga a produção nos trilhos com uma eficiência de custo e baixa emissão de carbono que o mercado internacional exige.

A obra, que deve ser concluída no segundo semestre de 2027, é a peça mais visível de um quebra-cabeça logístico que o governo federal tenta montar no estado. Em maio de 2025, o Ministério dos Transportes já havia leiloado a chamada “Rota da Celulose“, um pacote de R$ 10,1 bilhões para alavancar as rodovias BR-262 e BR-267, além de trechos estaduais que cortam cidades-polo como Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo. Mais recentemente, no fim de 2025, o BNDES deu sinal verde para um aporte de R$ 1,05 bilhão destinado à Eldorado Brasil, que construirá sua própria ferrovia de 86,7 km ligando Três Lagoas a Aparecida do Taboado. O estado, que até pouco tempo atrás sofria com gargalos, transforma-se num imenso canteiro de obras sobre trilhos.

Brasil e Reino Unido

Acordo assinado entre representantes do Brasil e do Reino Unido
Acordo assinado entre representantes do Brasil e do Reino Unido | Foto: Michel Corvello / Divulgação MT

Agora, a narrativa deixa o interior de Mato Grosso do Sul e voa para os gabinetes envidraçados de Brasília. Dias após o lançamento da pedra fundamental em Inocência, o Ministério dos Transportes firmou um memorado de entendimento com a Crossrail International, ligada ao Departamento de Transportes do Reino Unido. O objeto da parceria é a troca de conhecimento técnico em planejamento, regulação e eficiência logística, efetivando um verdadeiro intercâmbio de conhecimentos com um país que entende de ferrovias desde a Revolução Industrial.

O secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro, recebeu os representantes britânicos. “Sinalizamos que nosso país está comprometido com boas práticas, planejamento responsável e ambientes regulatórios estáveis”, disse Ribeiro, listando os pilares que a parceria pretende reforçar, incluindo sustentabilidade, segurança operacional e novos modelos de financiamento.

O acordo não é apenas figurativo, pois ele abre um canal direto com instituições do calibre da UK Export Finance (a agência de crédito à exportação britânica), da Network Rail (a administradora da malha ferroviária do Reino Unido) e da Transport for London. Para Mark Lench, diretor de desenvolvimento da Crossrail International, o memorando é o pontapé inicial de uma “parceria de longo prazo” com a malha ferroviária brasileira.

A recém-lançada Política Nacional de Concessões Ferroviárias promete injetar na iniciativa privada a responsabilidade sobre mais de 9 mil quilômetros de ferrovias. A conta é ambiciosa e contempla oito leilões nos próximos anos, com expectativa de atrair R$ 140 bilhões em investimentos iniciais e um potencial de R$ 600 bilhões ao longo dos contratos. Estão na fila projetos faraônicos como o Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118), a sempre polêmica Ferrogrão, e a reabilitação da Malha Oeste, que o ministro Renan Filho prometeu recolocar nos trilhos.

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