Enquanto os 251 cavalos mecânicos 100% elétricos do modelo E7-95T cruzam o oceano rumo ao Porto de Vitória, no Espírito Santo, com desembarque previsto para dezembro, a XCMG Brasil trabalha em duas frentes simultâneas para enraizar sua operação no país, incluindo a montagem CKD (Completely Knocked Down) em Pouso Alegre, Minas Gerais, e a operação do novo centro de distribuição capixaba, oficialmente inaugurado neste mês de setembro.
Em entrevista à Frota&Cia, Hilário Matzenbacher, executivo da XCMG Brasil, detalhou os bastidores dessa estrutura que prepara o terreno para a fabricação plena de caminhões elétricos em território brasileiro.
A fábrica de Pouso Alegre não é uma novidade na trajetória da XCMG no Brasil. Instalada desde 2012, a unidade ocupa uma área de um milhão de metros quadrados e, ao longo de mais de uma década, recebeu novas linhas de produtos. “A fábrica já existe desde 2012 no Brasil. E ao longo do tempo, a XCMG foi colocando novas linhas de produtos lá dentro. Então, tem diversos equipamentos hoje fabricados pela XCMG no Brasil, com mais de 70% de nacionalização, inclusive com código Finame“, revela Matzenbacher.
Entre os exemplos citados pelo executivo está a escavadeira XE225BR, equipamento de 22 toneladas que carrega a sigla BR justamente por ser fabricado no país. “Quando você olhar no equipamento XCMG, falando pouquinho de máquinas de linha amarela, o ‘BR’ significa que ela é fabricada no Brasil“, explica.
Linha rodoviária

Para receber a linha de montagem dos caminhões elétricos, a XCMG está erguendo um novo galpão dentro da área existente em Pouso Alegre. O executivo revela que algumas unidades dos caminhões já chegaram desmontadas e estão no estoque da empresa, enquanto a engenharia ajusta a linha para iniciar a operação. “A gente está colocando novo galpão ali dentro daquela área, essa linha de montagem CKD. Então hoje, como eu falei anteriormente, já temos algumas unidades desses caminhões desmontados no estoque. A linha de montagem está sendo preparada para que o caminhão seja montado ali nesse regime, primeiramente. Depois, passará a ser fabricado“, detalha. “Até o final do ano estaremos montando esse caminhão no Brasil“, complementa.
Matzenbacher faz questão de diferenciar os dois processos. “Uma coisa é você montar, outra coisa é você fabricar. Na fabricação, nós teremos mais de 70% de índice de nacionalização, seja diretamente ou por de fornecedores instalados no Brasil. A XCMG já está se movimentando nessa direção“, confirma o executivo.
Segundo ele, a “fabricação nacional” ocorrerá até 2028. No entanto, ao considerar a velocidade de atuação da empresa chinesa, arrisca: “Pelo que eu conheço da XCMG, da velocidade em que ela atua, acredito que em 2027 já estejamos produzindo localmente caminhões finamizados“, prevê.
CD
O centro de distribuição no Espírito Santo cumpre um papel estratégico e imediato nessa engrenagem. Localizado em uma área de 200 mil metros quadrados, o espaço foi oficialmente inaugurado neste mês de setembro, embora já operasse há algum tempo. “Lá serão feitas as entregas técnicas, revisões dos veículos que chegam da China, etc. Atualmente, temos uns 2 mil equipamentos dentro dessa área para inspeção e preparação antes de entregar aos clientes e concessionários“, explica Matzenbacher. O executivo destaca a diversidade de máquinas estocadas no local: “Tem muita máquina, tem muito caminhão fora da estrada lá“, complementa.
A função do centro de distribuição consiste em ser o ponto de recebimento, armazenagem, revisão e despacho de equipamentos XCMG que chegam ao Brasil. “A ideia lá é ser centro de distribuição para peças e para equipamentos. Então chega, desembarca, recebe, armazena, guarda, faz a revisão que for necessária e despacha“, resume o executivo.
Transportadora Navarini
Recentemente, a montadora confirmou a comercialização de 251 caminhões elétricos do modelo E7-95T para a Navarini. “Ao desembarcarem, eles serão revisados nesta unidade e faremos a entrega técnica ao cliente“, conta Matzenbacher. Para saber mais, leia a matéria exclusiva de Frota&Cia sobre o detalhamento desta operação a partir de 28 de setembro.
Pós-vendas
A estruturação da rede de pós-venda também avança em paralelo. A XCMG já possui 10 unidades avançadas distribuídas pelo Brasil, que funcionam como centros de distribuição estratégica para peças e técnicos. “A XCMG está concessionando em todo o Brasil a linha de caminhões rodoviários, como ocorre com as marcas tradicionais de veículos a combustão“, compara Matzenbacher.
O plano é replicar esse modelo. “Nos próximos seis meses, expandiremos nossa presença para todo o país por meio de revendedores de veículos, peças e serviços. Hoje, a XCMG tem estoque e estamos avançando para os concessionários“, revela.
Teste de fogo
A operação da Navarini, com seus 251 caminhões rodando 12 mil quilômetros por mês cada um, será o primeiro grande teste de fogo dessa estrutura brasileira. A manutenção preventiva e corretiva será feita de forma mútua, com técnicos da transportadora e da XCMG atuando em conjunto.
O executivo reforça que a aposta na produção nacional não é apenas uma estratégia comercial, mas uma necessidade diante da velocidade da transição energética. “Na China, por exemplo, nesse mercado gigantesco, mais de 60% de tudo que roda em rodovias já é 100% elétrico. Portanto, quando se observa o tamanho do mercado de novos, que é de 1 milhão por ano, e constata que mais da metade já é eletrificada, podemos perceber o quanto estamos atrasados na transição energética. E o maior desafio, como todos nós sabemos, é pontos de recarga“, analisa Matzenbacher.
A operação com a Navarini, segundo ele, é a prova de que esse desafio está sendo superado: “A própria Navarini vai fazer isso. Imagine que você vai ter 1.390 km eletrificados. Note que os carregadores estarão ali. Não é o foco da Navarini fazer isso, mas, por exemplo, terão outros transportadores que também virão buscar caminhões elétricos com a XCMG que fazem essa rota. Então eles poderão acordar com a Navarini sobre a utilização dos mesmos pontos de recarga“, revela o executivo.
Com a montagem CKD começando até o final deste ano, a fabricação plena projetada para 2027-2028 e um centro de distribuição de 200 mil metros quadrados operando em Vitória, a XCMG constrói as fundações de uma indústria nacional de veículos pesados de emissão zero. A pergunta que fica, nas palavras do próprio Matzenbacher, é se o restante do mercado brasileiro acompanhará o ritmo: “O que a gente está fazendo com a Navarini, todos podem ter acesso. Estamos fazendo um trabalho de quebrar esse paradigma“, conclui.




