Na manhã de 14 de setembro de 2026, a 72ª IAA Transportation foi inaugurada no Centro de Exposições de Hannover, na Alemanha. No estande da FAW TRUCKS, um caminhão conceito prateado atraiu olhares. Trata-se do TL.X Visionary Concept Truck, um produto prospectivo voltado para 2036.
Pouco se sabe, no entanto, que o design interno e externo desse conceito saiu das mãos de uma equipe altamente internacional do Centro Global de Design Avançado da FAW em Munique (FAW Munich R&D GmbH). Entre eles, o responsável central pelo design de interior é um designer brasileiro: Guilherme Barbosa de Oliveira.
A FAW Munich R&D GmbH foi fundada em maio de 2018, na Moosacher Straße, região central de Munique, próxima ao Parque Olímpico. O centro é focado em inovação e design automotivo global, atuando no desenvolvimento de conceitos de exterior, interior e cores e acabamentos (Colour & Trim), atendendo a marcas como Hongqi, Bestune e Jiefang.
O projeto TL.X foi desenvolvido em colaboração por um grupo de designers, incluindo o brasileiro Guilherme, responsável pelo design de interior e pela coordenação da modelagem virtual; o designer russo Rustam Schogenow, que liderou o design de exterior; e o chinês Wenyu Wu, que também participou do desenvolvimento do interior. Os três trabalham lado a lado em Munique, comunicando-se em inglês — que não é a língua materna de nenhum deles — para resolver um desafio e tanto: como fazer um caminhão que ainda pareça atual daqui a dez anos.
O ponto de partida do design do TL.X é um caminhão antigo, de 1956. O “T” vem da raiz comum dos produtos de exportação da FAW Jiefang, “Tron”; o “L” representa “Leading“; e o “X” simboliza o futuro infinito da logística. Mas a inspiração mais profunda vem do CA10, que é o primeiro veículo produzido pela FAW em 1956, marco inaugural da indústria automobilística chinesa.
“A inspiração foi o CA10, o primeiro caminhão da marca“, relembra Guilherme em entrevista. Ele participou inicialmente da primeira fase do exterior, ao lado de Rustam, e depois migrou para o interior, onde coordenou a equipe de modelagem virtual e desenvolveu do zero toda a parte de ergonomia, assentos e volante. “O que buscamos foi fluidez, aerodinâmica, e ao mesmo tempo manter a homenagem ao caminhão clássico“, complementa.
Essa lógica de “renovação do patrimônio” atravessa todo o conceito, pois não se trata de romper com o passado, mas de redefinir a relação entre o espaço de condução e o motorista, preservando os valores centrais do veículo comercial.
Por dentro

Se o exterior é o esqueleto do TL.X, o interior é sua alma. E os responsáveis por moldá-la são Oliveira e Wu. “Praticamente todos os caminhoneiros do mundo vivem dentro do caminhão. E os interiores dos caminhões hoje são projetados de forma muito instrumental — desconfortável, pensando apenas em robustez, em tons de cinza“, avalia o chinês.
A lógica do interior do TL.X é mudar isso por completo. “Queremos realmente melhorar a vida do caminhoneiro por meio de novos materiais, formas mais confortáveis e superfícies mais suaves“, detalha Wu.
Oliveira acrescenta detalhes mais concretos: “O interior oferece uma pequena área de lazer. A modularidade é o ponto forte e você pode configurar para um motorista itens como cama, cozinha, guarda-roupa, ou a versão com banheiro, ou ainda a versão para duas pessoas, motorista e passageiro, com cama de casal“, exemplifica.
Impacto futurista por fora
O designer de exterior Rustam Schogenow tem uma filosofia clara para a forma do TL.X. “Nossa ideia não é apenas desenhar um caminhão bonito. É mudar completamente a imagem da condução de caminhão“, revela o russo.
Essa “mudança de imagem” se traduz no tratamento de superfície. “Veja o tratamento da superfície. É bastante incomum para um caminhão. Usamos um tratamento sofisticado, que parece quase uma escultura sobre rodas“, ilustra Schogenow. Em complemento, o ele recorre a uma metáfora poética: “Como música congelada sobre as rodas.”
Diferente do formato “caixote” típico dos caminhões, o exterior do TL.X busca fluidez e emoção. Mas a fluidez não é apenas estética, beneficiando diretamente a sua aerodinâmica. Na era da eletrificação, o coeficiente de arrasto determina diretamente a autonomia e a estética.
Cinco sistemas de propulsão em plataforma única
O que há de realmente radical no TL.X está escondido sob a “pele”. Rustam revela um número-chave: “Uma plataforma, cinco sistemas de propulsão. Essa é a ideia central do conceito“. Segundo informações divulgadas pela FAW Jiefang, o TL.X é compatível com cinco formas de propulsão: diesel, elétrico a bateria, híbrido plug-in, gás natural (CNG/LNG) e célula de combustível de hidrogênio. O usuário pode alternar a fonte de energia sobre o mesmo chassi.
Rustam apresenta um cálculo: “Isso reduzirá em cerca de 70% o custo para as empresas de logística.” Ele admite que é uma estimativa aproximada, mas a direção é clara, já que a modularidade não está apenas no espaço, mas também na energia.
O que isso significa para os operadores logísticos? Um veículo capaz de se adaptar a diferentes infraestruturas energéticas de diferentes países e regiões, alternando entre diesel, gás natural e eletricidade sem precisar trocar o veículo inteiro quando a rede de abastecimento mudar.
Condução autônoma Nível 4
O veículo tem capacidade de condução autônoma Nível 4. Wu explica a lógica por trás dessa aposta: “O Nível 5, totalmente autônomo, provavelmente levará mais tempo. Acreditamos que o Nível 4 deve chegar em cerca de dez anos. Mas mesmo assim, ainda precisaremos de alguém para gerenciar a condução, gerenciar a entrega, gerenciar a logística“, prevê.
Em sua visão, o caminhoneiro do futuro “será mais um gestor” do que um simples condutor. Essa premissa molda diretamente o layout funcional do interior, que conta com tela de projeção, volante dobrável (que, recolhido, vira mesa de trabalho) e assistente de voz com inteligência artificial. Quando o veículo está em modo autônomo, a cabine se transforma em escritório móvel ou espaço de descanso. “É por isso que você pode explorar mais possibilidades no interior“, diz o designer chinês. “Você pode fazer muito mais coisas lá dentro“, complementa. Oliveira confirma a integração de IA: “O interior tem assistência de inteligência artificial, com comandos de voz, para deixar a proporção do espaço ainda mais confortável“, revela.
O conceito vai virar produção?

Essa é a pergunta que todo caminhão conceito recebe após o lançamento. A resposta de Rustam é honesta e contida. “Se vai entrar em produção, ainda não sabemos. Como todo carro conceito, é primeiro um conceito. Não sabemos o que o amanhã trará, mas temos certeza de que temos capacidade de fazer algo semelhante em um futuro próximo. Esta é apenas a nossa visão.”
Mas algumas tecnologias já são “entregáveis”, como a compatibilidade com cinco sistemas de propulsão, a lógica modular da cabine, a preparação de hardware para condução autônoma Nível 4, em que nada disso é mero artifício conceitual. O CORTRON CS, modelo de produção apresentado pela FAW Jiefang na mesma feira, já está pronto para entrar no mercado europeu com base na sétima geração de caminhões pesados da marca.
O TL.X funciona mais como uma plataforma de validação tecnológica para responder perguntas como: quais soluções são viáveis? Quais lógicas de interação funcionam? Quais materiais se adequam aos cenários de uso dos caminhões do futuro? Essas questões são exploradas primeiro nos conceitos e, aos poucos, chegam à produção.
O “laboratório global de design” em Munique
Por trás do TL.X está uma estratégia maior da FAW Jiefang, a de colocar o design no lugar mais próximo do mercado e da tecnologia. Munique é um polo global do desenho automotivo, onde BMW, Audi e outras marcas mantêm seus centros de design. A escolha da FAW de estabelecer ali seu centro de design avançado tem um objetivo claro: atrair talentos internacionais e usar a diversidade cultural como motor de inovação.
A própria combinação de Guilherme, Rustam e Wenyu é produto dessa lógica. Um brasileiro, um russo e um chinês, trabalhando em inglês em uma cidade alemã, projetando um caminhão chinês para o mercado global. Suas diferenças de origem não são obstáculo, mas recurso por meio tradições estéticas distintas, entendimentos diferentes do usuário, intuições de engenharia diversas, que no choque produzem novas soluções.
Esse modelo de “equipe multicultural” não é raro entre montadoras globais, mas para a FAW Jiefang representa um passo crucial na transição do “fabricado na China” para o “projetado globalmente”. No estande do TL.X, o CA10 de 1956 e o TL.X de 2036 dividem o mesmo espaço, separados por 80 anos. E o que conecta esses 80 anos é a conversa diária destes designers em um escritório em Munique.








