Veículos conectados abrem nova fronteira para financiamento e seguros

Dados de telemetria já viabilizam seguros personalizados no Brasil, mas a falta de conectividade em longas distâncias ainda trava o financiamento dinâmico

Por Gustavo Queiroz

- agosto 19, 2026

Marcello Larussa, diretor Comercial do Banco Mercedes Benz do Brasil

A revolução dos veículos definidos por software, anunciada há dois anos pela Daimler Truck durante a IAA Transportation 2024, já não é mais uma promessa distante, sendo uma realidade em curso que está redesenhando não apenas a engenharia automotiva, mas todo o ecossistema financeiro que orbita o setor. Caminhões cada vez mais sofisticados e conectados geram um volume de dados até então inédito, e instituições financeiras começam a mirar esse manancial de informações para criar produtos dinâmicos, personalizados e alinhados ao comportamento real de cada motorista e de cada frota.

Em entrevista à reportagem, Marcello Larussa, diretor Comercial do Banco Mercedes-Benz do Brasil, detalhou como a instituição vem explorando as possibilidades abertas pela telemetria embarcada nos veículos comerciais. “A gente tem procurado diversificar as nossas ofertas. Nós temos financiamento, tem a rental e tem os seguros também”, afirmou.

No segmento de seguros, a transformação já é palpável. O modelo conhecido como Pay How You Drive (ou “pague conforme você dirige”) utiliza dados de telemetria para ajustar o prêmio do seguro com base no comportamento efetivo do condutor. “É exatamente com base na telemetria, que, através de APIs, s operadoras conseguem falar: ‘Para esse tipo de cliente vai custar mais barato ou mais caro, dependendo da forma que ele dirige’”, explicou Larussa.

Diferentemente das métricas tradicionais, que consideram predominantemente o perfil demográfico do condutor e as características do veículo, o Pay-How-You-Drive (PHYD) foca na maneira real de dirigir. Velocidade, acelerações bruscas, frenagens inesperadas, horário de uso e tipos de vias percorridas são alguns dos parâmetros monitorados para compor um perfil de risco detalhado. Estudos empíricos realizados nos mercados norte-americano e europeu indicam reduções entre 10% e 15% na ocorrência de sinistros com a adoção desses modelos telemáticos, além de superioridade preditiva sobre os modelos clássicos de precificação. “Isso é concreto já”, resumiu o executivo.

Financiamento será próximo passo

Marcello Larussa, diretor Comercial do Banco Mercedes Benz do Brasil
Para Larussa, as tecnologias precisam avançar ainda mais para que mudanças disruptivas possam ser incorporadas | Foto: Divulgação

Se no seguro a inovação já é uma realidade, no financiamento o Banco Mercedes-Benz vislumbra um horizonte igualmente promissor, ainda que com passos mais cautelosos. “No caso de financiamento, nós ainda não temos isso, mas em algumas partes do mundo isso já existe”, admitiu Larussa.

A ideia é que o conhecimento detalhado do comportamento de cada veículo e, por extensão, de cada empresa operadora, permita uma precificação mais justa e alinhada à realidade de cada cliente. O executivo ilustrou com exemplos práticos do agronegócio e da mineração: “Imagina, por exemplo, uma época onde você tem uma produção de cana-de-açúcar, mas no período subsequente você tem uma paralisação em função de chuvas ou de qualquer outra coisa. Mineradoras, por exemplo, também estão sujeitas a isso. Teremos a capacidade de ir lá e precificar isso da forma como realmente é, com o comportamento de pagamento do cliente em função da sua sazonalidade de receitas”, adiantou.

A lógica é simples, afinal contratos de financiamento que antes eram engessados em parcelas fixas e consecutivas poderiam ser reconfigurados para acompanhar o fluxo de caixa real de cada negócio, conhecido a partir dos dados gerados pelos próprios caminhões. “Nós ainda não temos isso, é um desejo. Tem muita tecnologia embarcada dentro desses caminhões, e a gente precisa usar melhor isso e saber como aproveitar”, ponderou Larussa.

O gargalo da conectividade

Apesar do potencial, a implementação em larga escala desses modelos no Brasil esbarra em um desafio estrutural: a conectividade. O país tem dimensões continentais, e longas distâncias, sobretudo em regiões agrícolas, de mineração e de transporte, que frequentemente possuem áreas com cobertura de rede insuficiente ou inexistente.

Uma das dificuldades que existem relacionadas a isso são as sombras no país”, alertou Larussa. “Dependendo da tecnologia embarcada nesses caminhões, e como o país é muito grande, em geral você tem longas distâncias. Essas áreas de sombra formam uma lacuna na precificação ou no modelo de negócio”, complementou.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Indicador de Conectividade Rural da associação ConectarAGRO em conjunto com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a cobertura 4G ou 5G nas áreas agrícolas do Brasil passou de 18,7% para 33,9% entre 2024 e 2025, marcando um avanço expressivo de 81%, mas que ainda deixa dois terços das áreas produtivas do país sem cobertura de rede móvel adequada. O mercado brasileiro de dispositivos IoT movimentou US$ 1,6 bilhão em 2024 e deve superar US$ 4,1 bilhões até 2030, com crescimento anual projetado de 16,5%, mas a infraestrutura de telecomunicações ainda corre atrás da demanda.

Ainda tem muito o que avançar em relação à infraestrutura de telecomunicações no país para que isso seja uma realidade. Mas de fato é uma oportunidade gigante que as empresas têm e que precisam trabalhar”, afirmou Larussa.

IA e o futuro

O executivo vê na inteligência artificial um vetor adicional de aceleração para esse desenvolvimento. “Ainda estamos engatinhando quando se fala de inteligência artificial. Hoje, a gente olha para essa tecnologia, em relação à sua pergunta, para resolver os problemas atuais, mas em termos de disrupção ainda há passos a serem tomados nessa direção”, disse Larussa.

A visão da Daimler Truck para veículos definidos por software, apresentada como a próxima revolução tecnológica durante a IAA Transportation 2024, aponta para caminhões capazes de se tornar “dispositivos auto-otimizáveis”, prevendo perigos na estrada, realizando tarefas administrativas de forma automática e integrando-se profundamente aos sistemas de TI dos clientes. Essa arquitetura, que permite atualizações contínuas e personalizadas ao longo de todo o ciclo de vida do veículo, será a base sobre a qual novos modelos de negócio financeiros poderão ser construídos.

O caminho é longo, e a infraestrutura de conectividade no Brasil ainda impõe limites. Mas a direção está traçada. Para Larussa e para o Banco Mercedes-Benz, a oportunidade consiste em transformar o dilúvio de dados gerado pelos veículos conectados em produtos financeiros mais justos, mais dinâmicos e mais alinhados à realidade de cada cliente. “A gente precisa usar melhor isso e saber como aproveitar”, concluiu.

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