O fechamento do principal corredor rodoviário entre Argentina e Chile, na região da Cordilheira dos Andes, já dura mais de 22 dias e mantém mais de 2 mil caminhões parados. A interrupção do tráfego no Paso Los Libertadores, rota estratégica para o transporte internacional de cargas, provoca perdas milionárias para transportadoras e ameaça o abastecimento chileno.
A estimativa é do empresário Danilo Guedes, diretor da Comissão de Transportes Internacionais do SETCESP. Segundo ele, o prejuízo acumulado apenas com a permanência dos veículos já se aproxima de US$ 10 milhões. O cálculo não inclui eventuais perdas ou danos a mercadorias, especialmente produtos perecíveis.
“Estamos falando apenas dos caminhões parados, sem considerar cargas que possam ter se deteriorado ou estragado nesse período”, afirmou Guedes. A rota é utilizada por veículos do Brasil, da Argentina, do Chile, do Uruguai e de outros países sul-americanos.
Frio intenso aumenta risco para caminhoneiros
Embora a maior parte dos veículos não esteja estacionada diretamente nas áreas mais elevadas da Cordilheira, as condições continuam severas. Durante a noite, as temperaturas podem chegar a -10 °C ou -15 °C, de acordo com o representante do SETCESP.
As autoridades argentinas e chilenas estão providenciando atendimento médico e estruturas de apoio para os motoristas. Guedes relatou ainda que recebeu a informação sobre a morte de dois caminhoneiros, supostamente em razão do frio e da altitude.
Além das dificuldades climáticas, os motoristas enfrentam a alta dos preços e a escassez de alimentos nas regiões próximas. Segundo Guedes, alguns produtos chegaram a ter o preço triplicado, o que aumenta a pressão sobre profissionais que permanecem retidos há semanas.
Liberação da fronteira deverá ser gradual
A retomada do tráfego não deverá ocorrer de forma imediata, mesmo após a abertura do corredor. O Paso Los Libertadores costuma receber entre 400 e 500 caminhões por dia. Com uma fila estimada em mais de 2.500 veículos, incluindo os que continuam chegando à região, a normalização do fluxo poderá levar vários dias.
A prioridade deverá ser dada às cargas perecíveis. Na sequência, as autoridades terão de organizar a passagem de outros tipos de mercadoria e reprogramar operações de transporte, embarques e estoques.
Outro ponto de atenção é a validade dos documentos de trânsito aduaneiro. Como os veículos permanecem parados além do prazo originalmente previsto, o setor solicitou ao governo brasileiro que atue junto às autoridades argentinas para viabilizar a renovação dos documentos e evitar prejuízos adicionais às empresas.
Mais de seis metros de neve dificultam a operação
A remoção da neve está sendo realizada em conjunto por equipes argentinas e chilenas. As máquinas avançam a partir de cada lado da fronteira para abrir a estrada, mas o trabalho depende da estabilidade do clima. Há trechos com mais de seis metros de neve acumulada, inclusive na região conhecida como Caracoles, no lado chileno.
De acordo com Danilo Guedes, uma nova nevasca pode obrigar as equipes a reiniciar parte do trabalho. A cautela é necessária porque a liberação prematura da estrada pode colocar caminhões e operadores em risco, como já ocorreu em episódios anteriores, quando veículos ficaram presos e precisaram ser resgatados.
Impactos no abastecimento do Chile
O bloqueio também afeta a cadeia de suprimentos chilena. O país depende de cargas provenientes do Brasil, da Argentina e do Paraguai para complementar a oferta de diversos produtos, incluindo carnes.
Guedes afirmou que já há relatos de falta de carne e alertou para o risco de desabastecimento de alimentos e itens de higiene caso a interrupção se prolongue. Para reduzir os efeitos da crise, empresas e autoridades precisarão administrar estoques de segurança, definir prioridades e reorganizar a programação das cargas.
Brasil acompanha situação e cobra cooperação
Apesar de o bloqueio ocorrer em uma passagem entre Argentina e Chile, o Brasil é diretamente afetado pelo número de caminhões e cargas brasileiras envolvidos na operação. Segundo Guedes, autoridades dos três países mantêm contato para preservar a integridade dos motoristas e das mercadorias.
A Comissão de Transportes Internacionais do SETCESP também acompanha a situação e avalia quais medidas podem ser solicitadas ao governo brasileiro. Entre as preocupações estão o atendimento aos caminhoneiros, a regularização do trânsito aduaneiro e a coordenação da fila após a reabertura.
Para Guedes, questões políticas não devem comprometer o comércio regional. Ele defende que Brasil e Argentina mantenham a cooperação diplomática e comercial independentemente das divergências entre governos, já que o fluxo de cargas entre os países é estratégico para toda a região.
Setor busca medidas estruturais para o transporte internacional
Além da crise na Cordilheira, a Comissão de Transportes Internacionais trabalha em pautas como a implementação do Canetir, documento ligado ao transporte internacional, e a harmonização de regras entre Brasil e Argentina.
Entre os temas discutidos estão seguros, pesos e dimensões dos veículos e a necessidade de maior simetria regulatória. Para o setor, regras mais alinhadas podem reduzir entraves e dar mais previsibilidade às transportadoras que operam no comércio sul-americano.
Enquanto as equipes trabalham para remover a neve e reabrir a passagem, empresas e motoristas aguardam uma solução segura. A expectativa é de que, após a liberação, o fluxo seja retomado de maneira controlada para evitar novos congestionamentos e garantir prioridade às cargas mais sensíveis.


