Sob a lógica cartesiana das estantes metálicas e o zumbido constante da movimentação de máquinas e mercadorias, o centro de distribuição revela sua dualidade entre uma arquitetura desenhada para a precisão, mas que ainda depende da imprevisibilidade dos gestos humanos. São passos que se acumulam em dezenas de quilômetros por dia sobre pisos riscados por rodas de paleteiras, braços que se estendem até o limite da terceira prateleira, olhos que varrem telas e códigos em uma coreografia ditada não pelo ritmo, mas pela urgência do consumo. Cada movimento, cada desvio nos corredores, é uma negociação entre a eficiência projetada e a fadiga real. É nesse campo de forças, onde a física do corpo encontra a rigidez do aço, que o próximo salto em eficiência logística está prestes a reescrever as regras do movimento.
A Libiao Robotics, gigante chinesa com mais de 50 mil robôs de triagem implantados em todo o mundo, está pavimentando o caminho para o que seus executivos descrevem como o próximo grande ponto de inflexão logístico, uma virada de chave comparável à automação que transformou a indústria automobilística nas décadas de 1960 e 1970.
Em uma entrevista exclusiva à Frota&Cia, Thiago Holanda, gerente Regional da Libiao Robotics para a América Latina, detalhou os planos audaciosos da empresa para a região, o cenário desafiador do mercado brasileiro e o lançamento de um produto que promete eliminar uma das etapas mais ineficientes da cadeia de suprimentos: o transbordo de mercadorias.

O Brasil, escolhido como base da Libiao para a América Latina, apresenta um paradoxo logístico fascinante. De um lado, um mercado consumidor de dimensões continentais e um ecossistema de comércio eletrônico em franca expansão, impulsionado por gigantes marketplaces chinesas. De outro, uma escassez crítica de mão de obra, custos operacionais em elevação e uma complexidade tributária e regulatória que desafia até os planejadores mais experientes.
Holanda, que lidera as operações da empresa a partir do Brasil, enfatiza que a escolha do país não foi arbitrária. “O mercado brasileiro e latino-americano é por si só muito peculiar. O racional de investimentos tem muito poder na decisão final em termos de automação robótica”, explica. A empresa já possui projetos engatilhados no Brasil e em outros mercados sul-americanos. A presença local, segundo ele, é crucial. “A Libiao decidiu contratar em todos os países do mundo pessoas locais para que elas toquem os seus negócios localmente. Porque já entendemos um pouco da cultura e conseguimos traduzir a estratégia da companhia para a região”, complementa.
A estratégia da empresa para a América Latina se assenta em pilares sólidos, o reconhecimento da marca, a geração de novos negócios e a participação ativa nos principais eventos do setor. “A gente tem um pipeline bastante robusto aqui para a região em pouco mais de um ano de trabalho”, afirma Holanda, citando o projeto com os Correios Argentinos como um marco de referência que já se tornou case de sucesso.
Impacto financeiro
Em um mercado onde cada centavo conta, a robótica logística da Libiao se apresenta não como um custo, mas como uma alavanca de lucratividade. Holanda é enfático ao detalhar o impacto financeiro direto das soluções da empresa. A promessa é de um retorno sobre o investimento (ROI) que pode ocorrer em menos de um ano, um feito notável no setor. “A gente tem casos que têm retorno do investimento em automação que acontece em menos de 1 ano. Inclusive, principalmente na Europa, a gente tem um parceiro que reduziu em 8 meses o retorno do investimento que ficou na casa de milhões de dólares”, revela o executivo.

Mas o benefício vai além da mera substituição de tarefas. A precisão dos sistemas robóticos permite um controle granular sobre cada item que transita pelo centro de distribuição. “A gente tem operações que hoje a gente consegue mensurar na casa de centavos de movimentação por caixa”, revela o Holanda.
No entanto, o ponto mais crítico, segundo ele, é a mitigação de perdas. “Ainda hoje, apesar da digitalização, há operações que não têm o controle 100% do que está acontecendo dentro da sua operação logística. É muito comum ver clientes que falam: ‘Eu tenho uma taxa de perda de itens aqui de 0,5%’. Onde eu não sei o que aconteceu com essa caixa”, exemplifica. Em um marketplace com faturamento bilionário, essa porcentagem aparentemente ínfima se traduz em centenas de milhões de reais perdidos anualmente.
A rastreabilidade de ponta a ponta oferecida pelos robôs não apenas elimina esse sangramento financeiro, mas também transforma a logística em um centro de dados que alimenta a inteligência artificial para a tomada de decisão. “A inteligência artificial vai sugerir as próximas decisões baseadas nos dados da operação que está sendo feita por robôs. A pessoa vai tomar decisão baseada nesses dados, como um guarda-rede de proteção.”
O desafio da mão de obra e a escala 6×1

A discussão sobre a jornada de trabalho 6×1, que prevê a redução da disponibilidade de mão de obra, é outro fator que acelera a adoção da automação. Para Holanda, a robótica surge como a solução natural para esse gargalo iminente. “Uma vez que ela entra em prática, ela só potencializa a escassez dessa mão de obra que já acontece hoje. Atualmente, você tem algumas regiões onde existe uma disputa muito grande de força de trabalho. O robô mitiga essas questões, uma vez que os sistemas não precisam de muitas pessoas para funcionar”, avalia.
A flexibilidade da solução é outro trunfo. Inspirada em um conceito de montagem modular — “como se fosse um Lego” — a tecnologia permite implementações faseadas. É possível começar com metade da capacidade planejada e, ao atingir determinados KPIs, “iniciar a fase de implementação da próxima etapa e dobrar a capacidade”, sem a necessidade de paralisar a operação.
Exclusivo: lançamento do AirRob Pro
É neste cenário de transformação que a Libiao Robotics prepara seu movimento mais aguardado para o mercado global. Durante a entrevista, Holanda revelou com exclusividade os planos para um novo produto que promete revolucionar a dinâmica dos armazéns. “A gente tem um produto chegando, um spin-off do AirRob, que vai movimentar, não somente caixas plásticas, mas a própria caixa de papelão do cliente”, anunciou.
O sistema, batizado de AirRob Pro, representa uma evolução significativa em relação aos sistemas tradicionais de goods-to-person (mercadoria-ao-homem). Atualmente, para que um robô possa manipular produtos, eles geralmente precisam ser transferidos para contendores plásticos padronizados — um processo conhecido como decanting, que consome tempo, espaço e recursos humanos. O AirRob Pro elimina essa etapa. “Ao invés de ter que utilizar caixa plástica ou fazer a aquisição delas para colocar uma embalagem de papelão dentro, o operador logístico terá uma ferramenta que vai operar sua própria caixa de papelão”, detalha Holanda.
Lançado inicialmente no mercado chinês, o AirRob Pro avança para outros mercados da Ásia e, também, na Europa, onde a Libiao já possui operações mais consolidadas. A expectativa é que, em breve, a novidade chegue à América Latina, oferecendo aos operadores logísticos uma ferramenta poderosa para aumentar a densidade de armazenagem e a velocidade de processamento sem a necessidade de infraestrutura adicional. O sistema foi recentemente demonstrado na feira LogiMAT 2026, em Stuttgart (Alemanha), e já é finalista do prêmio IFOY (International Intralogistics and Forklift Truck of the Year) Awards 2026, que reconhece soluções inovadoras de automação intralogística.
O futuro é modular

A visão da Libiao para a América Latina transcende a mera venda de equipamentos. A empresa busca se consolidar como um parceiro estratégico para a transformação digital do setor. “A gente tem suporte técnico local para operação e ajustes, e a customização de projetos já atende as necessidades de cada cliente”, afirma Holanda. A empresa já está licenciada pela Anatel para transmissão de dados via Wi-Fi no Brasil e atende a rigorosas normativas técnicas, como requisitos de abalo sísmico no México e no Chile.
A mensagem final de Holanda ressoa como um prenúncio do que está por vir. “A robótica para logística, como a inteligência artificial, está sendo um ponto de inflexão. Não é uma questão de ‘o quê’, mas uma de ‘quando’ a gente vai fazer essa virada de chave.” Com a chegada do AirRob Pro e uma estratégia focada em inovação contínua e adaptação cultural, a Libiao Robotics parece determinada a fazer essa virada acontecer na América Latina.
