Mulheres avançam nos setores do transporte, menos em cargos de liderança

Por Victor Fagarassi

- abril 27, 2026

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Quando foi criado em 2020, o Movimento Vez & Voz funcionava mais como um fórum de discussões sobre inclusão feminina no transporte rodoviário de cargas, ainda totalmente online por conta da pandemia que o mundo enfrentava naquela época. Agora, seis anos depois, esse movimento ganhou mais força e desde 2022 ganhou uma comissão própria dentro do SETCESP, com reuniões periódicas voltadas tanto para empresas quanto para as profissionais do setor. Os encontros, atualmente realizados de forma bimestral, reúnem participantes de várias regiões do país.

À frente do movimento desde sua criação, Camila Florêncio explica que a iniciativa surgiu inicialmente como um espaço de troca de experiências e networking, mas evoluiu para uma atuação mais ampla junto às empresas de transporte. “A gente entendeu a necessidade de acompanhar mais de perto as empresas nessa jornada de equidade de gênero, promovendo troca de boas práticas, formação e orientação”, afirma.

Segundo Camila, as pautas da comissão são ajustadas conforme as demandas do mercado e os desafios enfrentados pelas empresas. Em 2026, dois temas passaram a ocupar espaço central nas discussões: saúde mental e violência contra a mulher.

A executiva afirma que o aumento de casos de violência doméstica e feminicídio trouxe reflexos diretos para o ambiente corporativo, especialmente em empresas que possuem colaboradoras com medidas protetivas. “Não dava para ignorar esse cenário. Tivemos que discutir como empresas e colaboradoras podem atuar juntas nessas situações”, diz.

O tema foi levado inclusive para o encontro bimensal do Movimento Vez & Voz, realizado em março, que contou com painéis sobre violência doméstica e acolhimento dentro das empresas.

Além disso, a comissão também promove debates sobre assédio corporativo, legislação trabalhista, equidade salarial e saúde emocional das profissionais. Entre os temas abordados estão síndrome da impostora, gestão do tempo e orientação sobre canais de denúncia em casos de assédio ou violência.

Camila Florêncio no último encontro do Movimento Vez & Voz
Camila Florêncio no último encontro do Movimento Vez & Voz

Números femininos no TRC

Dados acompanhados pelo movimento mostram que a presença feminina no transporte rodoviário de cargas ainda é reduzida, embora venha crescendo gradualmente.

Em 2023, as mulheres representavam 14,8% dos trabalhadores formais do setor. Em 2025, esse índice chegou a 16,8%, segundo levantamento baseado em dados da RAIS e do Caged.

Outro dado considerado relevante pelo movimento é que, pela primeira vez, o saldo de contratações femininas superou o masculino no setor. Em 2025, foram quase 25 mil novas vagas ocupadas por mulheres, contra cerca de 22 mil por homens.

Apesar do avanço, a presença feminina em cargos estratégicos ainda é baixa. Segundo Camila Florêncio, apenas cerca de 3% das posições de alta liderança no transporte são ocupadas por mulheres. O movimento utiliza como referência as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que estabelecem a meta de 30% de participação feminina — inclusive em cargos de liderança — até 2030.

“A transformação cultural é lenta, mas precisa ser constante”, afirma.

Outro desafio apontado pela executiva está na formação de mulheres para funções operacionais, especialmente na condução de veículos pesados. Segundo dados citados por Camila Florêncio, o Brasil encerrou 2025 com pouco mais de 32 mil mulheres habilitadas na categoria E, voltada para condução de carretas e veículos pesados. O número é considerado baixo diante do tamanho da frota nacional e da quantidade de empresas de transporte em atividade.

Para ampliar essa participação, empresas têm investido em programas internos de formação de motoristas, muitas vezes aproveitando colaboradoras de outras áreas para treinamento gradual na operação. Além disso, o movimento destaca a importância de mudanças estruturais dentro das transportadoras, desde programas de capacitação até adequações básicas, como uniformes desenvolvidos para mulheres. “Tem empresa que contrata a primeira motorista e percebe depois que não possui uniforme adequado para o corpo feminino”, relata.

Índice de equidade mede avanços nas empresas

Entre as iniciativas desenvolvidas pelo Movimento Vez & Voz está o Índice de Equidade no Transporte, criado para mapear políticas de inclusão e participação feminina nas empresas do setor.

O levantamento avalia diferentes critérios relacionados à equidade de gênero e gera relatórios individuais para cada transportadora participante, permitindo identificar pontos fortes e oportunidades de melhoria. Segundo Camila Florêncio, a proposta não é criar rankings, mas oferecer um diagnóstico que ajude as empresas a evoluírem em suas práticas internas.

Para o restante de 2026, o movimento planeja atualizar seu guia de boas práticas com exemplos reais do setor de transporte, ampliar o número de transportadoras participantes e fortalecer ações voltadas à formação de homens aliados na promoção da equidade dentro das empresas. Outro destaque será a realização da terceira edição do Fórum de Mulheres no Transporte e Logística durante a Fenatran 2026.

5º encontro Vez & Voz, realizado em março de 2026
5º encontro Vez & Voz, realizado em março de 2026
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