A Tragetta, que completou um ano de seu rebranding após a venda de sua unidade de armazenagem (era a Femsa), enfrenta um cenário paradoxal no mercado logístico brasileiro. De um lado, a empresa comemora sua capilaridade — presente em mais de 1.300 municípios com uma frota de 3.500 veículos — e segue investindo em expansão. De outro, observa a saída de concorrentes históricos, como a FedEx, que encerrou operações no Brasil, e a falência de outras empresas do setor, cenário que a diretora Geral da Tragetta, Alice Ana Paiva, descreve como um reflexo de uma “economia que está sangrando para o transportador“.
“O mercado está cada vez mais exigente. O nível de detalhe é mais apurado, entra inovação, qualificação técnica, automação, rota sustentável. O que mudava em dez anos agora muda em três meses. Com a entrada da IA, o mundo muda muito mais rápido“, afirma Alice. “Por outro lado, a cadeia da indústria nos pressiona cada vez mais. A exigência aumentou e a pressão por queda de custos também aumentou. E essa conta nem sempre é balanceada, nem sempre há um encontro de contas justo“, complementa.
A executiva pondera que, enquanto 1% a 5% dos embarcadores demonstram disposição para pagar mais por rotas sustentáveis, a grande maioria — “os 95% que movem o ponteiro das companhias” — exige redução de custos aliada à alta qualidade. “Como é que essa conta fecha?“, questiona.
Frota

A Tragetta opera atualmente com 3.500 veículos em todo o território nacional, distribuídos entre cavalos mecânicos, baús, caminhões toco, truck e três quartos. Desse total, quatro são elétricos, todos da JAC Motors, concentrados na região do Grande ABC paulista, onde a operação diária não ultrapassa 80 quilômetros de raio, bem abaixo da autonomia declarada de 230 quilômetros por carga, que na prática opera em cerca de 150 quilômetros, segundo a empresa.
Sobre outras fontes de energia sustentável, o executivo de Transporte e Logística da Tragetta, Albert Barros revela que a empresa estuda o biometano, mas esbarra no custo do veículo — cerca de R$ 1 milhão ante R$ 700 mil de um caminhão a combustão convencional. “Ainda não se paga. Estamos fazendo TCO, tentando enquadrar e achar um meio-termo“, afirma.
Uma das apostas mais promissoras, segundo ele, é o sistema híbrido desenvolvido em parceria com a Verga, que utiliza gás como aditivo ao motor a combustão. “Um veículo a diesel que fazia 3 km por litro, com essa conversão passa a ter média de 3,7 a 4 km por litro, dependendo da rota. Tenho menos consumo de diesel e, indiretamente, contribuo para o meio ambiente, injetando menos diesel no motor“, revela Barros.
Para 2026, a Tragetta tem previsto um Capex de R$ 24 milhões para renovação da frota, que serão revertidos na aquisição de 70 a 80 placas novas. A empresa também avalia veículos baús com maior capacidade, já que os atuais comportam 30 pallets, porém a legislação passou a permitir carretas mais longas, que acomodam dois pallets adicionais. A idade média da frota atual é de 8 anos para os cavalos mecânicos e cerca de 10 anos para os baús.
Telemetria

A Tragetta implementou recentemente o software Onisys, que integra telemetria instalada em toda a frota e permite o monitoramento online do comportamento dos condutores. Diferentemente dos sistemas tradicionais, que analisam o desempenho após a conclusão da viagem, a nova ferramenta atua de forma preditiva.
O sistema automatiza também os treinamentos corretivos. Sempre que um motorista conclui uma viagem com comportamento inadequado, recebe automaticamente um treinamento específico, como direção defensiva para casos de excesso de velocidade, manutenção, entre outras necessidades. O caminhoneiro fica suspenso temporariamente até completar o módulo, no formato de EAD. “A telemetria tradicional é pós-evento. Agora queremos a ação antes e identificar quem são os profissionais com tendência a gerar acidentes, com comportamentos inseguros. Conseguimos uma ação preditiva e específica“, informa Barros.
Crise no transporte
A saída da FedEx do Brasil no TRC e a recuperação judicial de outras transportadoras, na visão de Alice Ana Paiva, indicam uma tendência de concentração do mercado nas mãos de poucos operadores de grande escala. “O número de transportadores grandes que têm essa capilaridade que a Tragetta tem vem se reduzindo ao longo dos anos. Em contrapartida, a Tragetta não parou de investir: estamos ampliando frota e filiais importantes“, destaca.
A executiva ressalta, no entanto, que o transporte de cargas no Brasil enfrenta desafios estruturais que vão além da gestão individual das empresas. “Será que o nível de exigência está acompanhando as margens necessárias para viabilizar o serviço de transporte? O cliente quer rota sustentável, mas isso custa mais caro. E nem sempre ele quer pagar por isso. Ao contrário, ele pede save (redução de custos)“, diz.
Para Alice, a resposta da Tragetta a esse dilema tem sido o investimento contínuo em tecnologia, eficiência operacional e valorização dos motoristas — ativos que ela considera centrais para manter a competitividade em um mercado que, a cada ano, exige mais e remunera menos.
