Dois protagonistas do setor industrial brasileiro, a Sonepar Brasil, líder em distribuição de materiais elétricos, e a Natura, gigante do setor de cosméticos, implementaram iniciativas estruturantes e tecnologicamente distintas em suas operações logísticas e produtivas, materializando compromissos corporativos de descarbonização alinhados ao Acordo de Paris. As ações, focadas na substituição de matrizes energéticas fósseis, abordam diretamente as emissões dos Escopos 1 (diretas) e 3 (indiretas da cadeia de valor), demonstrando caminhos complementares para a transição para uma economia de baixo carbono.
Jornada logística integrada
A Sonepar Brasil ampliou seu programa de logística sustentável com a incorporação de três unidades do caminhão pesado Scania G460, movidos a gás natural veicular (GNV), somando-se a uma frota preexistente de três vans urbanas de distribuição com propulsão elétrica. A estratégia é um componente-chave para atingir a meta corporativa global de redução de 46,2% nas emissões de CO₂ provenientes de frota e edifícios até 2030.
Os novos veículos a GNV foram dimensionados para operação em rotas interestaduais de longo curso, com distâncias entre 800 e 1.100 quilômetros, realizando entregas e coletas em fornecedores estratégicos. A análise técnica da operação indica uma redução de até 26% na emissão de poluentes atmosféricos comparativamente ao ciclo diesel equivalente, aliada a um ganho de eficiência econômica de 12% no custo do combustível. A frota foi distribuída para otimizar rotas nos eixos entre São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Santa Catarina e Paraná. Paralelamente, as vans elétricas atendem a demanda de última milha na região metropolitana de Campinas, eliminando emissões locais.
A iniciativa está inserida em um programa mais amplo intitulado “Jornada da Logística Sustentável“, com horizonte até 2028. Os resultados operacionais já auditados incluem a reutilização de mais de 13 mil unidades de embalagens secundárias de papelão e a segregação de mais de 3 toneladas de resíduos recicláveis em um único Centro de Distribuição. A empresa também implementou a substituição do conjunto “palete de madeira + filme plástico stretch” por contêineres retornáveis de polipropileno de alta resistência. Esta mudança aumentou a densidade de carga, reduziu a geração de resíduos sólidos e otimizou a cubagem dos veículos, diminuindo a frequência de viagens.
Biometano de aterro

Em um movimento integrado de maior complexidade técnica, a Natura, em parceria com a Ultragaz, implementou uma solução energética dupla baseada em biometano em seu complexo industrial de Cajamar (SP). O combustível, de origem renovável, é gerado a partir da captação e purificação do biogás de aterros sanitários, sendo aplicado simultaneamente para a geração de vapor nas caldeiras da fábrica e como combustível para uma frota dedicada de caminhões.
A iniciativa é inédita, de acordo com a fabricante, por combinar o abastecimento de processos industriais e logísticos a partir de uma única central de abastecimento interna, tecnologia desenvolvida pela Ultragaz. O biometano suprirá 45% da demanda energética dos processos produtivos da unidade de Cajamar e atenderá integralmente 28 caminhões que realizam a rota entre a fábrica e os Centros de Distribuição da Grande São Paulo. A projeção de consumo para 2026 é de aproximadamente 3,5 milhões de Nm³ (metros cúbicos normais) de biometano anuais, volume equivalente ao consumo residencial de 30.000 famílias.
O modelo configura um ciclo de economia circular, já que parte dos resíduos urbanos destinados ao aterro parceiro em Caieiras retorna à Natura como energia renovável. O ganho ambiental é quantificado em uma redução de até 1.300 toneladas de CO₂ equivalente por ano. Operacionalmente, o abastecimento dos veículos no posto interno é realizado em aproximadamente 10 minutos, um ganho de produtividade significativo frente aos 40-50 minutos usualmente despendidos em postos rodoviários.
A iniciativa é um pilar do Plano de Transição Climática da Natura, que estabelece a meta de Net Zero para 2030 – 20 anos antes do compromisso global do setor –, com objetivos validados pela Science Based Targets initiative (SBTi) e alinhados ao cenário de aquecimento global de 1,5°C.
Tendências setoriais
Os dois casos ilustram a convergência estratégica do setor produtivo brasileiro para a descarbonização, porém com escolhas tecnológicas diferenciadas. Enquanto a Sonepar adota uma abordagem multimodal (elétrico para última milha e GNV para longo curso), focada na eficiência operacional e redução de resíduos sólidos, a Natura investe em uma solução integrada de energia renovável (biometano) que ataca simultaneamente os escopos 1 e 3, com forte componente de economia circular.
Ambas as iniciativas evidenciam que a transição energética deixou o patamar de projeto-piloto para se tornar um vetor de competitividade, combinando benefícios ambientais mensuráveis com ganhos tangíveis em eficiência operacional e redução de custos logísticos.
