O ar condicionado sussurra um mantra gelado contra o calor absurdo que esmaga o asfalto da Rodovia dos Bandeirantes (SP-348). Meus dedos, entretanto, não buscam o botão do clima, mas sim o console central de 14,6 polegadas da Foton Tunland V7, deslizando pela função “chassi transparente”. A tela renderiza, em definição HD, o fantasma do asfalto rachado, dos detritos invisíveis. É uma tecnologia nascida para o ambiente fora de estrada, mas que aqui, serve como um lembrete psicoativo de que você está pilotando uma besta de 5,61 metros de comprimento e 2,3 toneladas, um colosso que transforma picapes médias concorrentes em carrinhos de golfe dadas as suas dimensões superlativas para a categoria.
Esta não é uma crítica automotiva comum. É uma viagem. Uma fuga. Uma busca por raízes – tanto as que prendem videiras centenárias ao solo vermelho de Jundiaí, quanto as que uma montadora chinesa, gigante global de veículos comerciais, tenta fincar no solo fértil e competitivo do mercado brasileiro de picapes. O destino nominal é o Restaurante Villa Brunholi, mas o verdadeiro alvo é a própria noção de deslocamento. A ferramenta? Esta Tunland V7, um artefato técnico que se propõe a ser “20% mais extensa” que a líder do segmento, segundo os dados frios de seu catálogo. A realidade? Ela é tão grande que se tornou um evento urbano. Estacionar na garagem do prédio em São Paulo foi impossível e precisei apelar para uma garagem maior em outro local.

A rota é uma narrativa linear de fuga, partindo da selva de concreto paulistana, com suas faixas de rodagem e ruas estreitas e becos claustrofóbicos, inicialmente pela SP-348), rumo ao noroeste. Poderia ter escolhido os desafios impostos pelas características da Anhanguera (SP-330), mas entreguei-me à comodidade de uma rodovia tantas vezes classificada como um tapete por seus usuários, afinal, estava acompanhado de minha família. A Tunland, em seu modo de condução “Normal” (que une “Eco” e “Sport”, segundo a engenharia), engole as imperfeições com a arrogância silenciosa de sua suspensão dianteira independente em duplo wishbone. O motor diesel 2.0 Aucan, turbinado e acoplado ao sistema híbrido leve de 48V da Bosch, não ronca. Sussurra. Os 175 cv e 445 Nm de torque são administrados com a suavidade de um mordomo pela transmissão automática ZF de 8 marchas. O “turbo lag”? Minimizado pelo impulso elétrico do motor de correia (BSG), que também movimenta acessórios e recarrega a bateria na frenagem e descida. É tecnologia de ponta, vestida com a promessa de robustez de quem se vende como “líder mundial na fabricação de veículos comerciais”.
A paisagem se transforma. O cinza dá lugar a tons de verde e ocre. A saída para Jundiaí se anuncia. A cidade, outrora apenas um nome no caminho para lugares mais distantes, revela sua vocação como “Terra da Uva”. A estrada municipal que leva à Villa Brunholi serpenteia entre cenários entre o urbano e o rural. Infelizmente, não tive a oportunidade de utilizar o “modo Areia” ou “Lama” do seletor de tração 4×4 (com diferencial traseiro blocante). De toda forma, o conforto reina e o isolamento acústico é tão eficiente que o sussurro do diesel se funde à trilha sonora do ventilador e das minhas próprias reflexões.

E então, ela surge. A Villa Brunholi não é um simples restaurante, mas um pedaço de história italiana transplantado. A construção em estilo alpino, de madeira e pedra, data de 1947, erguida pela família Brunholi, imigrantes que trouxeram na bagagem não só a saudade, mas o conhecimento ancestral da viticultura. O local não é apenas um templo gastronômico focado na culinária italiana e nos vinhos de altitude da região, é um museu vivo. No mesmo terreno, a família mantém um Museu do Vinho, um acervo de ferramentas, documentos e tonéis que contam a epopeia da uva em São Paulo, e uma adega familiar onde os exemplares mais preciosos repousam na penumbra úmida e fresca. Sem poder degustar absolutamente nada, já que fui “o motorista da rodada”, adquiri uma garrafa de Pinot Noir da casa, um vinho agradável ao paladar, sendo seco e leve ao mesmo tempo.
Estacionar a Tunland V7, com suas rodas de 18 polegadas e pneus All-Terrain 265/70, na frente dessa construção bucólica, é um choque estético deliberado. É o século XXI encontrando o XX. A picape, com sua grade cromada parruda da versão V7 (a “de entrada”, mais “voltada para trabalho”, nas palavras de Audie Carrara, gerente de Marketing da Foton), parece um astronauta deslocado em um vilarejo renascentista.
Desço do veículo. A porta fecha com um barulho sólido, pesado. Sob um escaldante calor de trinta e poucos graus célsius, o único cheiro que passo a perseguir é o da cozinha, responsável por um cardápio de delícias caseiras incluindo massas diversas, risotos e saladas frescas, especialmente.

Análise de mercado
“Acreditamos que o mercado de picape média vai crescer no Brasil. Trouxemos um produto já pronto para os próximos anos, pois apostamos na hibridização do setor”, analisa Carrara. Ele posiciona a Tunland no high-end (entre as mais sofisticadas) das médias, competindo com “conforto e acabamento descomunal”. O preço? R$ 289.990 para esta V7. Um ingresso competitivo diante de seus atributos para um clube seleto.

Segundo o gerente de Marketing da Foton, o público deste veículo é “ávido por explorar o novo. Ele busca mais contato com a natureza. São pessoas que buscam momentos em família”, observa. Carrara diz que o mix de vendas entre as versões V7 e V9 está próximo de 50% para cada. “A gente vê uma adesão muito grande do público feminino à V9. O fator decisivo? O teto solar panorâmico, a grade frontal com seu conjunto ótico mais elegante, enquanto a V7 possui ‘cara de mal’”, um termo melhor do que o clichê das variações para robustez. A versão V9, a R$ 309.990, é a que oferece esse item, junto com suspensão traseira por molas helicoidais (contra o feixe de molas da V7, mais “off-road”) e o piloto automático adaptativo com Stop & Go.
Para Carrara, “o pessoal se esquece que [picape] é um veículo comercial. A Foton traz um conhecimento do mercado de veículos comerciais nessa busca por um conforto maior.” É a justificativa para os 10 anos de garantia (5 anos sem limite de quilometragem, depois até 200.000 km) e a ênfase em parceiros como Bosch, ZF e BorgWarner.
O retorno
De volta à picape, para a volta. A noite cai sobre a Anhanguera. É quando os 256 tons da luz ambiente interna e o painel de instrumentos digital de 12,3 polegadas assumem o comando. O detector de fadiga (DMS) vigia, através de uma câmera minúscula no cluster à esquerda, a direção dos meus olhos. O ACC da V7 é simples, mas o detector de ponto cego (BLIS) e o de tráfego cruzado (RTCA) tornam a viagem mais segura.

A viagem termina onde começou: no caos paulistano. A Foton Tunland V7 não é um veículo para São Paulo, mas para escapar da capital paulista. Para ir a lugares como a Villa Brunholi, onde a história é palpável e o vinho respira, ou em quaisquer outros ambientes estradeiros e rurais. É um produto técnico que impressiona, uma convergência de eletrônica alemã, transmissão de primeira linha e uma filosofia chinesa de tamanho como afirmação. Seu maior desafio não é a areia, a lama ou a neve de seus seis modos de condução, mas a percepção pública em um mercado cativo a nomes consagrados.
Ao desligar o motor no meio da selva de pedra, o silêncio súbito é profundo. A besta adormece após um consumo médio de pouco mais de 11km/l. A Tunland V7 deixa uma impressão durável, como o gosto de um vinho tinto encorpado. É grande. É tecnológica. É, acima de tudo, uma picape de uma marca de veículos comerciais e que, embora possa ser usada para uma simples ida à sorveteria com a família, não trai sua vocação profissional. A Foton não veio brincar no mercado nacional e, por isso, exalta as maiores dimensões do segmento de picapes médias, bem como seu apelo no conforto, capaz de garantir boas horas consecutivas de estrada na maior tranquilidade para motorista e demais passageiros. “É um carro em que uso duas cadeirinhas de bebês e ainda posso transportar mais uma pessoa no meio”, conclui Carrara.

