A XCMG Brasil e a Transportadora Navarini assinaram na sede global da montadora, em Xuzhou, na China, o contrato de venda de 251 cavalos mecânicos 100% elétricos do modelo E7-95T. A operação, avaliada em aproximadamente R$ 500 milhões, é a maior compra de caminhões rodoviários elétricos pesados já realizada na América Latina e consolida a transportadora de Sorriso, no Mato Grosso, como detentora da maior frota do gênero na região
Por isso, quando o transatlântico desembarcar os 251 cavalos mecânicos E7-95T no Porto de Vitória, no Espírito Santo, em dezembro, a XCMG não estará apenas entregando uma frota. Estará inaugurando, com a Navarini, um corredor elétrico de 1.390 quilômetros no coração do agronegócio brasileiro, uma rota que corta relevos extremamente desafiadores e que, até então, era território exclusivo dos motores a combustão. A operação, fechada com a transportadora Navarini, é o maior contrato de caminhões rodoviários 100% elétricos já anunciado no país e pode ser um divisor de águas para a eletrificação do transporte pesado nacional.
Em entrevista à Frota&Cia, Hilário Matzenbacher, executivo da XCMG Brasil, explicou que a autonomia do E7-95T é uma variável diretamente condicionada à geografia e à carga tracionada. Equipado com uma bateria de 528 kWh, o caminhão pode rodar cerca de 450 quilômetros sem carga alguma. No entanto, foi no desafiador cenário brasileiro que a XCMG decidiu testá-lo. “Aplicamos esse caminhão, no caso da Navarini, num dos piores cenários do país, pegando relevos extremamente desafiadores. E esse caminhão entregou algo em torno de 230 km de autonomia com a capacidade máxima de carga dele“, revela. Os números impressionam quando se considera que cada um desses cavalos mecânicos vai tracionar um Rodotrem Graneleiro de 9 eixos, transportando grãos em uma rota que exige não apenas potência, mas inteligência energética.
A estratégia de recarga foi desenhada a quatro mãos. A XCMG forneceu os caminhões e os carregadores de 400 kW, enquanto a transportadora, com sua expertise em transporte, definiu os pontos estratégicos ao longo do trajeto. “A Navarini está colocando pontos de recarga ao longo da rota de 1.390 km que os veículos percorrerão. Durante essas paradas, os motoristas terão uma área de descanso com banheiro, chuveiro, cozinha e depois retomar a sua jornada“, detalha Matzenbacher.
A lógica por trás da distribuição dos pontos é evitar que o veículo fique uma hora inteira parado. Como o carregador tem capacidade de mandar 400 kW em uma hora, a Navarini optou por não esgotar a autonomia máxima do caminhão. “Se ele pode rodar 230, 250 km com uma carga, o cliente definiu que não quer ficar com o veículo parado por uma hora, mas cerca de meia-hora. Então, ele vai rodar menos entre as paradas“, explica o executivo. Na prática, os motoristas vão percorrer cerca de 200, 180 quilômetros entre cada recarga, completando a rota de ida e volta em aproximadamente quatro dias, respeitando a legislação trabalhista e a jornada do caminhoneiro.
Estratégia de manutenção

A manutenção, um dos pontos mais críticos para frotas de grande porte, sofre uma redução abrupta. Enquanto um caminhão a combustão possui um motor com mais de 5.000 peças, o elétrico se resume a um motor elétrico, um pack de bateria e uma unidade controladora. “É muito diferente. Por exemplo, o sistema de freios será revisto somente entre 80 mil a 100 mil quilômetros rodados“, compara Matzenbacher.
A XCMG está estruturando uma rede de pós-venda em todo o Brasil, com 10 unidades avançadas já distribuídas estrategicamente para peças e técnicos, e planeja concessionar o país inteiro nos próximos seis meses, seguindo o modelo das montadoras tradicionais do mercado nacional.
Argumento técnico
O cálculo do TCO (Custo Total de Propriedade) apresentado pela XCMG é contundente. Em um cenário hipotético de um caminhão a combustão que fatura R$ 80 mil por mês, cerca de 50% desse valor seria consumido apenas por diesel. Somando-se manutenções preventivas, trocas de óleo e filtros, esse custo se aproxima de R$ 50 mil mensais. “Com o nosso elétrico, energia e manutenção custarão R$ 12 mil“, afirma o executivo. A economia, portanto, pode chegar a 85% nos custos operacionais diretos, segundo a montadora.
A Navarini definiu como estratégia depreciar os caminhões ao longo de seis anos. A bateria, no entanto, tem garantia de fábrica de 8 anos ou 10 mil ciclos. “10 mil ciclos dividido por 365 dias de ano, nós estamos falando de 27 anos de garantia de bateria. E o que é essa garantia? É que ao final desses 8 anos, a capacidade de bateria será reduzida em 20%. Ele ainda continua com 80%“, explica Matzenbacher. Isso significa que um caminhão que hoje faz 250 km de autonomia, dentro de oito anos, fará 200 km, sem necessidade de descarte.
Adaptações
A tropicalização do produto foi mínima, mas cirúrgica. A Navarini, com sua frota extensa e conhecimento do motorista, solicitou ajustes que foram prontamente aceitos pela engenharia da XCMG na China. “Esse caminhão tinha uma cama curta e o cliente solicitou a alteração por uma maior, assim como pediu geladeira para o motorista, entre outros pequenos detalhes, como a instalação de defletor sobre a cabine. Tais sugestões foram aceitas para atender as necessidades do mercado brasileiro“, conta o executivo. Não foi necessária nenhuma alteração estrutural no chassi ou na suspensão, pois o projeto já nasceu 100% dentro da legislação brasileira de peso por eixo, com baterias distribuídas atrás da cabine e no chassi.
Tendência
A Navarini está sendo a percussora de algo que, segundo Matzenbacher, não tem como voltar atrás. “Quando o mercado começar a ver esses caminhões rodando quase 1.500 km, indo e voltando, constatando a viabilidade de uma frota elétrica, não tem por que – todo mundo que tem hoje uma frota de caminhão a combustão – não substituir imediatamente por veículod e nova energia. Porque o cliente não vai tirar mais dinheiro do bolso, pelo contrário. O que se está queimando hoje estará pagando o ativo novo“, conclui.




