Enquanto o comércio exterior global enfrenta um período de transição estrutural marcado por políticas industriais reconfiguradas, pressões geopolíticas sobre rotas e uma onda regulatória pós-pandemia, operadoras estratégicas no Brasil são forçadas a recalibrar seus modelos de negócio. A Macroex Importadora, companhia que encerrou o exercício de 2025 com um faturamento bruto de R$ 700 milhões e a movimentação física de 3.750 TEUs (Unidade Equivalente a Vinte Pés), serve como um caso paradigmático dessa adaptação forçada. Seus números, mais do que indicadores de volume, funcionam como um mapa de leitura dos fluxos de capital e insumos para a indústria nacional, incluindo aeronaves executivas (high-value, low-volume) dos EUA; rochas ornamentais e produtos químicos da China, Turquia e México; insumos para a indústria moveleira e vidros da Argélia.
A performance do período, consolidada frente a um cenário de apreciação cambial sustentada, custos de frete internacional em patamar estruturalmente elevado e gargalos crônicos de infraestrutura portuária, que incluiu episódios críticos nos terminais capixabas em Q1/2025 (período de janeiro a abril), não foi produto de expansão agressiva, mas de uma migração operacional. A empresa transitou de uma executora logística para uma gestora de cadeia de suprimentos de importação, com foco em gestão de risco tributário-cambial e inteligência de planejamento. “O ano exigiu mais leitura estratégica do que volume. Atuamos de forma antecipada na gestão do tripé risco-custo-prazo, reforçando nosso papel como parceiros de decisão, não como meros executores de processos”, analisa Aurélio Pretti, diretor-presidente da Macroex.
Dois movimentos corporativos em 2025 ilustram a busca por margens operacionais superiores e a redução da dependência de ciclos de commodities logísticas. O primeiro foi a entrada formal no segmento de aeronaves executivas, anunciado durante a Labace. A operação vai além do despachante aduaneiro especializado e consiste em um serviço integrado de trade finance, assessoria técnica na seleção de ativos, planejamento tributário otimizado (considerando regimes especiais como REPETRO e a complexa tabela do Imposto sobre Produtos Industrializados para aeronáutica) e desembaraço turnkey, culminando na entrega da aeronave certificada para operação no território nacional.
O segundo movimento foi a incursão no mercado ferroviário, visando concessionárias e órgãos públicos. O modelo adotado é o de One Stop Shop, com estoque nacional de peças de reposição (estrategia de safety stock para mitigar quebras na cadeia global) e representação exclusiva dos rebocadores Rail King. O objetivo declarado é gerar uma receita de R$ 100 milhões no segmento em um horizonte de três anos, atacando um ponto crítico do setor, que é a ociosidade forçada de locomotivas por falta de componentes.
Para contrapor a volatilidade externa e os entraves domésticos, a Macroex implementou um protocolo de mitigação baseado em três frentes:
- Diversificação de rotas e portos: Redução da concentração de operações em corredores únicos, utilizando análise de dados para remanejar cargas para terminais com capacidade ociosa e menor congestionamento, encurtando prazos de dwell time (tempo de permanência no porto) e exposição a demurrage e detention.
- Planejamento tributário ataque: Intensificação do uso de regimes aduaneiros especiais (Drawback, Entreposto, Liquidação Ex Officio), aliada a uma gestão proativa de pleitos administrativos junto à Receita Federal para isenção de multas por atraso na liberação (armazenagem e demurrage).
- Renegociação contratual: Atuação sistemática na revisão de cláusulas com armadores e seguradoras, transferindo parte do risco operacional e financeiro gerado pela instabilidade logística.
Preparação para 2026
O cenário projetado para 2026, segundo a leitura da própria empresa, é de consolidação de tendências rigorosas: portos operando no limite da capacidade; início dos impactos práticos da Reforma Tributária sobre as operações de importação; cruzamento massivo de dados pela Receita Federal com a plena operacionalização da Declaração Única de Importação (DUIMP) e do Portal Único de Comércio Exterior; e elevação dos padrões de compliance aduaneiro e financeiro.
Em resposta, a Macroex estruturou um plano de investimentos e reorganização interna baseado em quatro pilares interdependentes:
- Especialização da força-Tarefa: Treinamentos contínuos focados na análise estratégica de cenários macroeconômicos, leitura de contratos de câmbio forward e hedging, e gestão de riscos regulatórios.
- Padronização de processos críticos: Documentação e automação de workflows para etapas com alto impacto financeiro (classificação fiscal, valoração aduaneira, fechamento de câmbio), reduzindo variabilidade e erro humano.
- Sistema proprietário de gestão: Desenvolvimento de uma plataforma interna que integra dados de compra, logística, desembaraço e financeiro, proporcionando tracking em tempo real, transparência para o cliente e auditoria de segurança das informações.
- Reforço da Estrutura de governança: Fortalecimento das áreas de controladoria, contabilidade e fiscal, com a contratação de uma CFO com histórico em estruturação de empresas (Fabiana Pires) e a incorporação de um especialista aduaneiro sênior para validação técnica de catálogos de produtos e evitando autuações por descrição inadequada.
A trajetória da Macroex entre 2024 e 2025, e seu roadmap para 2026, sintetizam a nova equação do comércio exterior brasileiro, já que em um ambiente de margens comprimidas, a vantagem competitiva migra do custo puro da operação para a capacidade de antecipação, gestão integrada de informações e solidez governamental. A empresa apostou na complexidade como barreira de entrada, migrando para nichos de alto valor agregado e construindo uma infraestrutura tecnológica e humana capaz de transformar dados em decisão. O objetivo está em usar a previsibilidade operacional interna como um ativo comercial tangível. O crescimento sustentado projetado para 2026 dependerá menos do vento a favor do mercado e mais da eficiência da navegação por mares turbulentos.
