Fim da escolha: logística agora exige custo, segurança e agilidade juntos

Pesquisa com 450 profissionais aponta ruptura no modelo de gestão e setor abandona escolhas binárias e demanda simultaneamente redução de custos, ganho de produtividade e aumento de segurança, com a tecnologia ascendendo ao centro da estratégia operacional

Por Gustavo Queiroz

- janeiro 26, 2026

Gestão de frotas na Era da Inteligência Integrada

O setor de transporte e logística no Brasil atingiu, em 2025, um ponto de inflexão estrutural que redefine os parâmetros básicos da gestão. A histórica equação do trade-off, que forçava gestores a escolher entre operações mais baratas, mais rápidas ou mais seguras, foi oficialmente substituída por um mandato inédito de performance total, que é a exigência de entregar os três pilares simultaneamente. Esta é a principal conclusão da 5ª edição do Guia sobre Tendências de Gestão de Frotas e Logística, estudo anual conduzido pela multinacional estadunidense Platform Science, líder em soluções tecnológicas para o setor de transporte. A pesquisa, realizada entre outubro e novembro de 2025 com 450 profissionais de embarcadores, transportadores e operadores logísticos de todo o país (margem de erro de 5%, nível de confiança de 95%), revela um ecossistema sob pressão extrema, respondendo com uma maturidade operacional e tecnológica nunca antes documentada.

Rony Neri, diretor executivo LATAM da Platform Science.
Rony Neri, diretor executivo LATAM da Platform Science | Foto: Divulgação

O levantamento detecta uma hierarquia de desafios onde a redução de custos operacionais — combustível, manutenção, pneus — emerge como prioridade absoluta para 90% dos respondentes, refletindo um ambiente de volatilidade de preços e juros elevados. No entanto, a análise mais profunda reside no virtual empate técnico entre produtividade (77,2%) e segurança (76,1%). Este estreitamento estatístico sinaliza o fim da tolerância do mercado a compensações. “A operação não admite mais que se sacrifique segurança por produtividade, ou vice-versa. O gestor é pressionado a otimizar ambos os vetores ao limite, sob pena de perder competitividade em um setor de margens estreitíssimas”, analisa Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science.

A transformação é catalisada por uma mudança geracional acelerada e pela entrada definitiva da tecnologia no núcleo das decisões estratégicas. Pela primeira vez na série histórica do estudo, o uso de dados e tecnologia rompe a barreira do chamado “Top 5” das preocupações executivas, sendo apontado como caminho principal por 52,4% dos profissionais. “A tecnologia deixou de ser um item de custo ou um acessório tático. Ela é percebida agora como o único meio viável para resolver a equação impossível: fazer mais, com menos recursos e com maior controle de risco. É a base para a orquestração da operação”, afirma Neri.

Novo DNA operacional

A pesquisa detalha uma evolução conceitual na gestão: a migração do modelo de “monitoramento passivo” para o de “orquestração ativa por exceção”. Enquanto ferramentas como rastreamento GPS (94% de adoção) e videotelemetria com IA (73,2%) se tornam commodities, o grande gargalo identificado é a integração de sistemas, já que somente 27% das empresas operam em uma “zona fluída” de conectividade total. Para 38%, a integração é parcial, criando silos de dados, e para 35%, os processos ainda são majoritariamente manuais e isolados. Este déficit de integração impede a visão unificada do ciclo (ativo, condutor e promessa de entrega).

Os indicadores de performance (KPIs) refletem essa busca por uma gestão holística (enxergar as partes e suas conexões). No pilar “O Ativo”, dominam métricas de eficiência pura, como consumo de combustível (74,9%), custo por km (61,5%) e disponibilidade (57%). No pilar “O Fator Humano”, há uma virada cultural e o ranking de performance dos motoristas (72,4%) supera o controle punitivo de multas (37%), indicando uma gestão mais educativa e preventiva. Já no pilar “A Promessa” (experiência do cliente), métricas como tempo médio de entrega (47%) ainda têm adesão relativamente baixa, apontando para um campo de potencial otimização.

Renovação geracional

5ª edição do Guia sobre Tendências de Gestão de Frotas e Logística
Clique aqui para acessar a 5ª edição do Guia sobre Tendências de Gestão de Frotas e Logística.

O perfil demográfico do setor mostra uma renovação acelerada. A Geração Z (nascidos entre 1997 e 2009) praticamente dobrou sua participação em relação a levantamentos anteriores, alcançando 19,5% da força de trabalho, enquanto os Millennials (1981-1996) são a maioria (53,4%). Este novo contingente, com 83,6% possuindo ensino superior ou pós-graduação, é digitalmente nativo e orientado a dados. Paralelamente, a participação feminina retomou uma trajetória de crescimento, passando de 15,8% (2024) para 22% (2026), ocupando funções cada vez mais estratégicas.

Este cenário redefine as prioridades de investimento para 2026. Pela primeira vez, treinamento e capacitação (62,1%) lideram a lista de áreas que terão aumento orçamentário, superando a aquisição de novas tecnologias (58,5%) e a renovação da frota (54,5%). “O mercado entendeu que não adianta investir em hardware e software de ponta se o capital humano não estiver preparado para operá-lo e extrair inteligência. Estamos diante de uma corrida por eficiência humana”, interpreta o executivo da Platform Science.

Conclusão: A Era da Inteligência Integrada chegou

Os dados da 5ª edição do guia desenham um setor em transição madura. A busca por redução de custos já não é uma corrida cega, mas um processo sofisticado que depende diretamente da segurança operacional e da produtividade guiada por dados. A tecnologia não é mais o destino, mas a infraestrutura obrigatória. O próximo salto competitivo, conforme a pesquisa, não estará na aquisição de novas ferramentas, mas na capacidade de integrá-las, transformando dados dispersos em um fluxo contínuo de inteligência acionável. A logística brasileira, conclui o estudo, entrou definitivamente na era em que a excelência operacional não é uma opção setorial, mas a única condição para sobrevivência econômica.

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