Estudo revela que Brasil tem veículos mais limpos do mundo

Biocombustíveis são diferenciais técnicos relevantes na descarbonização da mobilidade e colocam o Brasil em vantagem

Por Gustavo Queiroz

- novembro 4, 2025

A Mercedes-Benz e a Be8 estão promovendo uma caravana com um caminhão e um ônibus movidos totalmente a biocombustível para a COP30

Um estudo pioneiro encomendado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e conduzido pelo Boston Consulting Group (BCG) revela que os veículos produzidos e utilizados no Brasil possuem a menor pegada de carbono do mundo quando avaliadas as emissões durante todo o seu ciclo de vida. A pesquisa, intitulada “Caminhos da Descarbonização: a pegada de carbono no ciclo de vida do veículo”, calculou pela primeira vez no país as emissões de CO₂ desde a extração das matérias-primas até o descarte final do veículo, um método conhecido como avaliação “do berço ao túmulo”.

Divulgado em 30 de outubro de 2025, o trabalho demonstra que a posição de vantagem do Brasil é sustentada por dois pilares principais, incluindo a matriz elétrica nacional, composta por 90% de fontes renováveis, e a matriz energética, que é 50% renovável, com destaque para o uso em larga escala de biocombustíveis. Esses fatores exercem impacto direto em todas as etapas da cadeia, desde a fabricação dos veículos e insumos até a fase de utilização, incluindo a recarga de modelos elétricos. O estudo servirá como base para as discussões da Anfavea durante a COP30, em Belém.

A metodologia do estudo realizou uma análise comparativa das emissões de veículos leves e pesados equivalentes, rodando no Brasil e nos principais mercados globais, composto por União Europeia, Estados Unidos e China. O conceito de ciclo de vida é considerado a forma mais abrangente de aferir a emissão de gases de efeito estufa e será adotado como critério a partir de 2027 pelo Programa Mover para a concessão de incentivos à descarbonização.

Rota Sustentável COP30
Clique aqui para conhecer o projeto da Rota Sustentável COP30, uma caravana com um caminhão e um ônibus movidos a B100 | Foto: Divulgação

De acordo com os resultados, os automóveis fabricados no Brasil que utilizam etanol, sejam eles híbridos flex ou movidos integralmente a combustível, registram as menores taxas de emissão de CO₂ do planeta. Estes veículos só são equiparados em desempenho ambiental por carros 100% elétricos fabricados no Brasil que utilizem baterias de origem ocidental, uma configuração que ainda não reflete a realidade dominante do mercado nacional. Em contrapartida, os veículos elétricos produzidos na China emitem mais CO₂ ao longo de sua vida útil do que a maioria dos modelos brasileiros, inclusive os movidos a etanol, enquanto os veículos a combustível fóssil na China apresentam a maior pegada de carbono entre todos os analisados.

O presidente da Anfavea, Igor Calvet, destacou que os combustíveis renováveis se mostram uma ferramenta eficaz para uma estratégia imediata de descarbonização. “A eletrificação ainda está em processo de aceleração, mas o Brasil já conta com uma significativa parte de sua frota beneficiando-se do uso de biocombustíveis, o que aparece de forma clara no resultado do estudo. O trabalho revela também as discrepâncias nas emissões de veículos da mesma tecnologia em diferentes países, com o Brasil se posicionando como um líder global quando falamos das frotas mais limpas”, afirmou.

A análise do ciclo de vida também detalha em qual fase as emissões são mais significativas. Para os automóveis a combustão, entre 87% e 91% das emissões totais ocorrem durante a fase de uso. Já nos veículos eletrificados, essa proporção cai para 53% a 57%, transferindo o peso das emissões para a etapa de produção, onde a fabricação das baterias responde por quase metade do total de CO₂ liberado. No caso de caminhões e ônibus a diesel, mais de 94% das emissões acontecem durante a utilização, indicando que o maior potencial de descarbonização para estes segmentos reside na ampliação do uso de biocombustíveis.

Rota Sustentável COP 30 entrevista
Clique aqui para assistir a entrevista com os executivos da Be8 sobre o biodiesel BeVant.

O estudo ainda projetou cenários futuros para a redução da pegada de carbono. A vantagem brasileira na matriz elétrica pode ser reduzida nos próximos anos devido aos pesados investimentos de outros países em fontes renováveis. No entanto, a matriz energética baseada em biocombustíveis é uma vantagem estrutural difícil de ser superada. Para veículos a combustão e híbridos, o maior potencial de redução está na qualidade e no maior uso de biocombustíveis, seguido pelo ganho de eficiência dos motores. Para os elétricos, a descarbonização depende do uso de energia renovável, da produção de baterias mais limpas e de ganhos de eficiência que ampliem a autonomia e a durabilidade.

Masao Ukon, diretor executivo e sócio-sênior do BCG, explicou que o Brasil parte de uma base vantajosa. “O estudo qualifica este ponto de partida e mostra o potencial de redução futura ao avançar em ganhos de eficiência ao longo das diferentes etapas da cadeia produtiva e de uso. São caminhos que permitem ao país acelerar sua jornada de descarbonização automotiva e permanecer na vanguarda global”, disse.

Para o presidente da Anfavea, as conclusões deixam claro que a descarbonização é um esforço que deve envolver toda a cadeia produtiva. “Os fabricantes vêm se esforçando há muitos anos para reduzir a pegada de carbono, tanto nos processos industriais como na eficiência dos veículos. Essa mobilização deve ser estendida para toda a produção dos insumos, o chamado ‘berço’, e também para as operações de descarte e reciclagem, que têm grande potencial de descarbonização ao estimular a renovação de frota e o aproveitamento de materiais reciclados”, concluiu Calvet. O conjunto desses achados reforça a posição única do Brasil não apenas em descarbonizar sua própria frota, mas também em exportar sua tecnologia flex e conhecimento em bioenergia.

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