A BorgWarner, fornecedora global de sistemas de propulsão para veículos, está expandindo seu portfólio de baterias no Brasil com a introdução da tecnologia de fosfato de ferro-lítio (LFP). O desenvolvimento, que utiliza as células Blade da FinDreams Battery (subsidiária da BYD), representa um avanço significativo na estratégia da empresa para o mercado de veículos comerciais eletrificados, com produção prevista para iniciar em 2026.
Atualmente, a empresa produz em sua unidade de Piracicaba (SP) o sistema de baterias NMC (níquel, manganês e cobalto), que equipa os ônibus elétricos Mercedes-Benz eO500U em operação no Brasil. Cada bateria NMC possui capacidade de 98 kWh, e um ônibus com quatro unidades pode alcançar até 280 quilômetros de autonomia. A nova linha LFP, no entanto, foi desenvolvida para complementar esse portfólio, atendendo a aplicações onde o custo-benefício, a durabilidade e a segurança são prioridades.
“A gente começou esse desenvolvimento das baterias LFP no ano passado, só que agora ela está mais avançada e pronta. É isso que estamos trazendo para apresentar para os clientes”, afirma Marcelo Ramos Rezende, diretor Geral de Sistemas de Baterias da BorgWarner no Brasil.

A principal inovação do sistema LFP da BorgWarner é a utilização de células Blade, uma tecnologia que dispensa a montagem em módulos intermediários, permitindo que as células sejam instaladas diretamente no pack. “Trouxemos essa tecnologia para o pack, que ficou mais compacto e mais barato, justamente porque a célula pode ser montada diretamente no pack”, explica Rezende. Essa arquitetura, conhecida como cell-to-pack, reduz a complexidade e o peso do sistema, aproximando a densidade energética da LFP dos níveis alcançados pela NMC.
A parceria com a FinDreams Battery garante à BorgWarner a exclusividade para comercializar baterias com células Blade para veículos comerciais nas Américas, Europa e partes da Ásia-Pacífico, sendo a única fabricante não OEM com esse direito.
Vantagens

A nova bateria LFP apresenta uma série de diferenciais em relação à tecnologia NMC. Sua vida útil é estimada em no mínimo 6.000 ciclos, o que, segundo a empresa, pode alcançar aproximadamente 15 anos de operação. Em comparação, o sistema NMC atual tem vida útil de até 4.000 ciclos. “Ela tem uma vida útil maior do que é a NMC. Portanto, ela acompanha o tempo de vida do ônibus, estimado em 15 anos”, detalha Rezende.
Outro ponto destacado é a capacidade de recarga rápida. O sistema pode ser carregado de 10% a 80% em cerca de 30 minutos, dependendo da configuração e da potência do carregador. “Além desse planejamento para o carregamento noturno dos ônibus, as baterias também podem ser recarregadas em intervalos durante o dia”, observa o diretor.
Em termos de segurança e estabilidade térmica, a química LFP é reconhecidamente superior à NMC, o que a torna especialmente adequada para aplicações urbanas. “Ela é uma bateria muito segura”, resume Rezende.
A BorgWarner desenvolveu o sistema LFP em quatro configurações de tamanho, permitindo a instalação em diferentes posições do veículo, incluindo sob o piso, no teto ou em formato cúbico para aplicações em caminhões. “Encontramos uma forma de deixar o produto escalável para abranger todo esse leque de potenciais clientes”, afirma o executivo. Essa modularidade, viabilizada pela tecnologia Blade, permite atender desde veículos urbanos de piso baixo até caminhões de médio porte, com packs que variam de 1 a 2 metros de comprimento. “É difícil você criar variantes específicas para cada cliente. Então, com esse conceito de modularidade, conseguimos cobrir bem a gama da necessidade dos nossos parceiros”, conta Rezende.
Embora a LFP esteja ganhando espaço, a BorgWarner não pretende abandonar a tecnologia NMC. “Estamos enxergando muitas aplicações que precisam de altíssima densidade energética, como caminhões para longas distâncias e, até aplicações marítimas como principais mercados para a NMC”, pontua Rezende. “Por mais que ela tenha um valor agregado maior do que a LFP, ainda vai ter o seu nicho e a sua aplicação”, complementa.
A LFP, por sua vez, é apontada como a tecnologia ideal para mobilidade urbana, como ônibus, caminhões e vans. “A densidade energética não alcança a NMC, mas já chegou muito perto com essa tecnologia nossa”, complementa o diretor.
Hibridização
Um movimento observado pela empresa é o retorno do interesse por veículos comerciais híbridos, especialmente para nichos onde a infraestrutura de recarga ainda é incipiente. “Na nossa leitura, esse tema voltou à tona de novo. Em contato com alguns potenciais clientes, identificamos a necessidade de aplicações que precisam de maior autonomia sem a necessidade de uma infraestrutura de recarga das baterias”, afirma Rezende. “É interessante que com essa bateria ganhamos mais flexibilidade para atender todos esses nichos e todas essas necessidades dos clientes”, conclui.
Com a nova plataforma LFP, a BorgWarner amplia sua capacidade de atender diferentes perfis de clientes no segmento de veículos comerciais, oferecendo uma solução que equilibra custo, durabilidade e desempenho em um mercado que, segundo a empresa, caminha para uma eletrificação gradual, mas inevitável.
