Todos os dias, 6,8 milhões de passageiros se movem por uma frota de 13.532 ônibus que serpenteia as 1.327 linhas da maior cidade do hemisfério sul. É um organismo pulsante, uma metrópole em movimento perpétuo que respira e exala dióxido de carbono, material particulado e óxidos de nitrogênio. A cada quilômetro rodado por um ônibus a diesel, a cidade acumula uma dívida invisível com seus próprios pulmões.
A Scania, em parceria com a Caio, anunciou o início da fase final de homologação do novo K 280 4×2 Millennium, um ônibus movido a gás natural e biometano que promete não apenas reduzir as emissões, mas reconfigurar a própria lógica da sustentabilidade no transporte de massa. O veículo já se encontra nas últimas etapas de validação junto à SPTrans e deve iniciar sua demonstração em itinerário real até setembro.
A estratégia da montadora sueca para a mobilidade urbana, como explica Manuel Perini, diretor de soluções de mobilidade da Scania para as Américas, é clara e ambiciosa: “Oferecer soluções de mobilidade completas, competitivas e sustentáveis em todo o mundo, mas adaptadas às necessidades dos nossos clientes, independentemente de onde eles estejam localizados”.

Em um mundo marcado por incertezas geopolíticas, novas legislações e a entrada de competidores asiáticos no mercado brasileiro, a resposta da Scania passa pela diversificação de tecnologias, incluindo desde motores a combustão interna até veículos elétricos e movidos a gás. “Nós entendemos que a evolução tecnológica tem sido cada vez mais rápida. E temos que nos preparar para esse mundo e como nós vamos conviver durante os próximos anos”, afirma Perini.
O novo K 280 é a ponta de lança dessa estratégia no Brasil. Equipado com um motor de 280 cavalos de potência e torque de 1.350 Nm, acoplado a uma transmissão automática ZF Ecolife 2, o veículo foi projetado para operar tanto em corredores de BRT quanto em linhas intermunicipais, com autonomia entre 300 e 350 quilômetros. Mas é no sistema de armazenamento de combustível que o modelo revela sua verdadeira inovação. Pela primeira vez no mercado brasileiro, a Scania utiliza cilindros do Tipo 4, fabricados em fibra de carbono, que são 70% mais leves que os convencionais e instalados no teto do veículo.
“Um dos destaques é a utilização de quatro novos cilindros para carregar o gás do Tipo 4, em fibra de carbono, 70% mais leves, de alta tecnologia, capacidade de 220 metros cúbicos e instalados no teto, que permitem maior capacidade de armazenamento de biometano com elevado padrão de segurança”, detalha Ivanovik Marx, gerente de Engenharia de Aplicações de Oferta de Soluções da Scania. A leveza dos cilindros não é um detalhe estético; ela impacta diretamente o consumo de energia e a capacidade de passageiros, que chega a 88 ocupantes.
O chassi, que pode ser encarroçado em comprimentos de 12 a 14 metros, oferece suspensão a ar na dianteira e na traseira, garantindo conforto tanto para o motorista quanto para os passageiros. Em termos de segurança, o veículo conta com frenagem autônoma de emergência (AEB) e, como opcional, um pacote avançado que inclui piloto automático e leitor de faixa (LDW).

A viabilidade econômica é, de fato, o grande trunfo do biometano. Enquanto a eletrificação da frota avança a passos largos, considerando que São Paulo já conta com cerca de 1.300 ônibus elétricos, o que representa 80% da frota nacional, o combustível renovável surge como uma alternativa mais acessível e imediatamente aplicável. “Quanto ao biometano, ele é mais do que um combustível renovável. É uma ferramenta para a economia circular. Quando produzido a partir de resíduos locais, também apoia a independência energética da região e gera empregos locais. Ônibus como este comprovam que a transição pode acontecer hoje, sem exigir concessões ou investimentos pesados”, diz Maurício Lucena é o gerente de Vendas de Soluções para Mobilidade da Scania Operações Comerciais Brasil.
De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), a substituição do diesel por biometano no transporte público poderia gerar uma demanda de 6,5 milhões de metros cúbicos por dia do combustível, movimentando uma cadeia produtiva que vai desde a reciclagem de resíduos orgânicos até a geração de empregos no campo.
A apresentação do K 280, no entanto, é apenas uma das faces de uma transformação mais profunda que está ocorrendo no polo industrial da Scania em São Bernardo do Campo. Christopher Podgorski, presidente e CEO da Operação Industrial da Scania na América Latina, prefere não chamar o local de simplesmente uma fábrica. Para ele, se trata de um “polo industrial”, um ecossistema de 5.200 pessoas que trabalham diariamente com uma missão clara: construir valor para o cliente.
“Ao longo de 70 anos, nós construímos muito mais do que uma oferta de produto, alguma inovação tecnológica, algum ‘gadget’. Nós construímos uma base de confiança com o ecossistema de transporte para sermos uma referência premium e, além disso, ser um parceiro ideal de confiança para esse mundo que está em acelerada transformação”, finaliza Podgorski.

