Mestrado em P&D prepara a RIO para os motores verdes

Em parceria com a UCS, a RIO capacita engenheiros para transformar P&D em tecnologia aplicada em motores a biocombustíveis e hidrogênio

Por Gustavo Queiroz

- julho 6, 2026

Programa de Mestrado Profissional da UCS apoiado por Rio Riosulense

Por trás de cada motor do futuro, há uma pergunta fundamental que poucos fora dos laboratórios de P&D se atrevem a formular: o que acontece quando a ciência dos materiais encontra a urgência da descarbonização? Em Rio do Sul, em Santa Catarina, a RIO – Riosulense, uma das maiores fabricantes de componentes automotivos da América Latina, decidiu que não bastaria esperar pelas respostas. A empresa precisaria cultivá-las a partir de suas próprias entranhas técnicas. Foi assim que nasceu o Programa de Mestrado Profissional, em parceria com a Universidade de Caxias do Sul (UCS): uma aposta de fôlego longo na única matéria-prima capaz de redefinir os contornos da engenharia mecânica, que é o capital intelectual sintonizado com a pesquisa de ponta.

Com mais de sete décadas de experiência, a RIO atua na fabricação de componentes para motores de combustão interna. Seu portfólio abrange mais de 5 mil peças que equipam desde veículos leves e caminhões até máquinas agrícolas e embarcações navais, com presença consolidada em mais de 28 países. No entanto, a indústria automotiva global atravessa um momento de inflexão, e a empresa de Rio do Sul (SC) não está imune às transformações. A pergunta que ecoa em seus corredores é a mesma que desafia os maiores centros de pesquisa do planeta: como serão os motores da próxima geração, quando o hidrogênio, o biometano e os biocombustíveis passarem a ditar as regras do jogo?

A nossa motivação foi estratégica, pois inovação depende de gente dedicada e cconhecimento. Nós nos baseamos em uma equação simples, pois para ter pesquisa é preciso ter pesquisadores. E nada mais motivacional do que estimular a própria equipe a se capacitar”, afirma Clebson Atilio Ferreira, gerente Técnico da RIO, idealizador do projeto e um dos alunos da primeira turma. A equação, porém, esconde uma complexidade tecnológica de primeira grandeza. “Como serão esses motores? Que peças do portfólio atual estarão presentes? O que mudará? Precisamos responder a essas perguntas, pois esses novos combustíveis demandarão, certamente, motores com características diferentes dos atuais a diesel ou a gasolina”, exemplifica Ferreira.

Para enfrentar esse desafio, a RIO estruturou um programa de mestrado profissional focado em Engenharia Mecânica, com ênfase em processos de fabricação e materiais. A escolha da UCS como parceira, segundo Ferreira, foi natural. “Além de possuir excelente infraestrutura de laboratórios e corpo docente qualificado, a instituição mantém uma relação muito próxima com a indústria, buscando contribuir para o desenvolvimento de diversos segmentos.” O programa, que teve início em 2023 e foi concluído em dezembro de 2025, combinou disciplinas on-line e presenciais, com os pesquisadores utilizando os próprios laboratórios da RIO para conduzir seus experimentos. Como incentivo, a empresa arcou com 70% das mensalidades, e a segunda turma já está em formação para começar em 2027.

O curso não foi concebido como um fim em si mesmo, mas como o primeiro degrau de uma escada de inovação que se estende por três etapas distintas. “De uma forma geral, as pesquisas realizadas até o momento ainda estão em fase experimental, para entendimento do comportamento de novos elementos, materiais e processos no contexto da fábrica”, detalha Ferreira. “A ideia neste momento foi formar um time de mestres capaz de conduzir as pesquisas necessárias no desenvolvimento de novas tecnologias em materiais, fundição e usinagem, para após aplicá-las na fabricação dos componentes destes novos motores.”

A primeira etapa, já concluída, foi dedicada à pesquisa conceitual e à validação de metodologias de desenvolvimento. A segunda etapa, que se inicia agora, concentra-se na determinação e validação das propriedades ideais para os materiais e processos produtivos, em parceria com a UCS que, inclusive, contará com um doutorando dedicado exclusivamente a essa fase. A terceira etapa será a prototipagem dessas tecnologias para validação em bancos de teste e campo.

Os trabalhos de pesquisa da primeira turma já revelam a profundidade técnica do programa. Marcelo Hausmann, coordenador de Engenharia, direcionou sua investigação para a usinagem de camisas de cilindro, um componente crítico para o desempenho e a durabilidade dos motores. “Os motores do futuro exigirão componentes cada vez mais complexos, o que torna os desafios de usinagem muito maiores. Por isso, é necessário compreender profundamente as técnicas de fabricação”, explica. Em um motor que opera com hidrogênio, por exemplo, as exigências de precisão e resistência ao desgaste são exponencialmente maiores, tornando a usinagem de alta precisão um campo de fronteira.

já Eliasar Martins Bernardo, Supervisor de Engenharia de Processos, mergulhou na área de fundição de aços, explorando ligas com qualidade superior que possam reduzir defeitos internos do metal e melhorar propriedades mecânicas e metalúrgicas. “Na busca por motores do futuro, com menor peso e maior eficiência, pesquisei ligas com maior qualidade, que possam reduzir defeitos internos do metal e melhorar propriedades mecânicas e metalúrgicas”, detalha Bernardo. A fundição de precisão é essencial para produzir componentes mais leves e resistentes, capazes de suportar as pressões e temperaturas dos novos ciclos de combustão.

Para além dos ganhos técnicos imediatos, o programa gerou um efeito multiplicador na capacidade de inovação da empresa. Ferreira destaca que a base de conhecimento criada pela primeira turma abriu possibilidades para a RIO submeter projetos a linhas de fomento e pesquisa de forma mais estruturada.

À medida que a indústria automotiva se prepara para a era dos combustíveis alternativos, do biodiesel ao hidrogênio verde, a estratégia da RIO revela a convicção de que a inovação não é um destino, mas um processo contínuo de formação, pesquisa e validação.

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