Entrevista: O Hyundai XCIENT Fuel Cell no Brasil fica para depois | Parte 3

PNBH2, corredores logísticos e parcerias: as três frentes que o país precisa amadurecer antes de receber o XCIENT Fuel Cell, segundo o vice-presidente da Hyundai para as Américas

Por Gustavo Queiroz

- abril 8, 2026

Hyundai XCIENT Fuel Cell no Brasil

O Brasil está no radar estratégico da Hyundai para o hidrogênio, mas a chegada do caminhão XCIENT Fuel Cell ao país ainda depende da maturação de três frentes fundamentais: estruturação da cadeia de produção local de hidrogênio de baixo carbono, identificação de aplicações âncora com perfil operacional adequado e formação de parcerias ao longo de toda a cadeia de valor.

Em entrevista à Frota&Cia, Ricardo Martins, vice-presidente administrativo da Hyundai Motor para as Américas Central e do Sul, afirma que a montadora acompanha de perto a evolução do mercado brasileiro e mantém diálogos contínuos com potenciais parceiros, mas evita estabelecer um cronograma. Sobre a produção regional do caminhão, o executivo é direto: não há planos no momento e toda a tecnologia permanece concentrada na Coreia do Sul, com a engenharia local atuando apenas nas etapas de adaptação e implementação do projeto.

Brasil e os próximos passos

Ricardo Martins, vice presidente administrativo da Hyundai Motor para as Américas Central e do Sul
Martins: Mercado brasileiro está no radar, mas depende do avanço da infraestrutura de H2 no país | Foto: Divulgação

O Brasil, com sua Política Nacional de Hidrogênio (PNBH2) e um mercado de caminhões muito superior ao uruguaio, permanece no radar estratégico da Hyundai. Mas a consolidação de um projeto no país depende da maturação de três frentes fundamentais, segundo Martins. “O Brasil é, sem dúvida, um dos mercados mais relevantes da América do Sul para a tecnologia de caminhões a hidrogênio. O tamanho do mercado de transporte pesado, a existência de uma política nacional estruturada para o hidrogênio, como o PNBH2, e o alto potencial do país para a produção de hidrogênio de baixo carbono, especialmente a partir de fontes renováveis, colocam o Brasil no radar estratégico da Hyundai”, revela.

A primeira frente é a estruturação da cadeia do hidrogênio, com ênfase na produção local de hidrogênio de baixo carbono. “A integração entre produção, distribuição e consumo do hidrogênio é essencial para garantir competitividade de custos, segurança operacional e escalabilidade do projeto”, destaca o executivo.

A segunda frente é a identificação de aplicações âncora com perfil operacional adequado ao uso de caminhões Fuel Cell, como corredores logísticos dedicados, operações de transporte pesado e setores com metas claras de descarbonização. “Essas aplicações são determinantes para assegurar escala inicial, previsibilidade de demanda e utilização contínua dos veículos”, elenca.

A terceira frente envolve a formação de parcerias ao longo de toda a cadeia de valor, incluindo produtores de hidrogênio, operadores logísticos, clientes finais, financiadores e, quando aplicável, governos estaduais ou iniciativas regionais. “Em paralelo, é fundamental o alinhamento com o ambiente regulatório e institucional, de modo a criar um cenário favorável e previsível para investimentos de longo prazo”, explica Martins.

Martins evita estabelecer um cronograma fechado neste momento. “Projetos de caminhões a hidrogênio exigem elevada coordenação entre múltiplos atores e dependem do grau de maturidade do ecossistema, em especial no que diz respeito à disponibilidade e ao custo do hidrogênio. O que podemos afirmar é que a Hyundai acompanha de perto a evolução do mercado brasileiro e mantém diálogos contínuos com potenciais parceiros industriais, operadores logísticos e atores institucionais, avaliando oportunidades de forma estruturada e alinhada às particularidades do país”, revela.

Produção regional

XCIENT Fuel Cell
XCIENT Fuel Cell

Sobre a possibilidade de produção regional do caminhão, Martins é direto: não há planos no momento. “Atualmente, todos os caminhões são produzidos na Coreia do Sul, onde a Hyundai concentra toda a tecnologia, infraestrutura industrial, ferramental especializado e mão de obra altamente qualificada necessários para a fabricação tanto dos veículos quanto dos sistemas de célula de combustível. Eventuais discussões sobre produção fora da Coreia poderão ser avaliadas no futuro, à medida que os mercados amadureçam, os volumes locais cresçam e as condições industriais e econômicas se tornem favoráveis em perspectivas regionais”, esclarece.

a participação da engenharia sul-americana no projeto é real, ainda que limitada a funções específicas. “Há participação da engenharia sul-americana no Projeto Kahirós, especialmente nas etapas de adaptação local, definição da operação, interface com o cliente, requisitos regulatórios e implementação do projeto no contexto regional. A engenharia local tem um papel relevante na adequação do caminhão e da operação às condições específicas da América do Sul, como perfil das rotas, clima, infraestrutura disponível, requisitos legais e necessidades do cliente”, exalta o executivo.

Martins faz questão de demarcar as fronteiras da contribuição local. “É importante destacar que toda a tecnologia do caminhão Fuel Cell é de origem coreana. O desenvolvimento do veículo, do sistema de célula de combustível, dos sistemas de alta tensão e das arquiteturas de segurança é integralmente realizado pela Hyundai na Coreia do Sul, onde estão concentrados o know-how tecnológico, a engenharia de produto e os processos industriais. Da mesma forma, todos os treinamentos técnicos para operação, manutenção e diagnóstico dos caminhões estão sendo conduzidos por engenheiros e técnicos coreanos que se deslocam até os locais onde estão os veículos, garantindo a correta transferência de conhecimento e a aplicação dos padrões globais da Hyundai.

Leia a parte 1 da entrevista clicando aqui: Entrevista: Hyundai XCIENT é o primeiro caminhão a h2 da América do Sul | Parte 1

Leia a parte 2 da entrevista clicando aqui: Entrevista: A dura prova sul-americana do XCIENT Fuel Cell | Parte 2

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