A garagem da Metrobus, no setor Novo Mundo, em Goiânia (GO), se tornou nos últimos dias o centro nervoso de uma das mais expressivas iniciativas de transição energética no transporte público brasileiro. O local abriga os primeiros exemplares de ônibus articulados movidos a biometano que passarão a integrar a frota do sistema BRT de Goiânia, representando a materialização de um projeto que teve início em janeiro de 2025 com um teste que muitos, à época, consideravam ambicioso demais.
O gestor de Infraestrutura e Manutenção do Consórcio BRT, Patrick Lucas, acompanhou de perto cada etapa desse desenvolvimento. Segundo ele, o ponto de partida foi um teste realizado com um ônibus padrão da Scania, rodado por quatro meses na capital goiana utilizando uma estrutura temporária de abastecimento. “Com esse teste, nós começamos a desenvolver o veículo. Existia o chassi, mas ele não era adaptado para o cilindro tipo 4“, explica Lucas, referindo-se à tecnologia de armazenamento de gás em fibra de carbono que permite maior capacidade de armazenamento com peso reduzido.

O desafio técnico, detalha o gestor, exigiu adaptações estruturais significativas. “Nós precisamos fazer alongamento, verificação da distribuição de peso, tivemos que fazer uma adaptação do chassi e da carroceria da Marcopolo. O grande desafio era o cilindro tipo 4 colocado no teto e homologado pelo Inmetro.”
O cronograma impressionou até mesmo os envolvidos, pois um projeto que tradicionalmente demandaria cerca de dois anos foi executado em 69 dias. “Conseguimos elaborar um veículo e criar um mercado. Para não ter ampla autonomia, ele teria que ser elétrico. Agora, com 400 km de autonomia, ele (Scania K 340C A6X2/2 NB Euro 6) vai disputar como igual com o carro a diesel“, comparou.
A infraestrutura de suporte a essa nova frota está sendo estruturada em etapas. Patrick Lucas explica que a primeira fase contempla a estrutura necessária para os oito veículos iniciais que estão chegando, enquanto ao longo de 2026 será construída a estrutura para os 101 veículos previstos para Goiânia. A escala do aporte reflete a magnitude da operação. “Nessa primeira fase, nós vamos passar de mais de R$ 20 milhões de investimento. E nós temos, como já é sabido pela normativa do governo, de termos 501 carros até 2027. Então, nós provavelmente passaremos de mais de R$ 100 milhões em investimento“, projeta.
O consumo diário de combustível com a nova frota dará um salto expressivo. “A gente tá falando de um consumo diário que vai sair de 2.500 m³ para 32.000 m³. Se fizermos uma conversão, estamos falando de um equivalente a 20.000 botijões de gás“, compara o executivo, buscando dar dimensão ao volume que será movimentado.
A operação dos novos veículos foi planejada para otimizar o uso da autonomia proporcionada pelo biometano. Cada ônibus deverá rodar, em média, mais de 200 km por dia, com capacidade para cumprir inclusive as viagens mais extensas do sistema, que atingem entre 240 e 260 km diários. A estrutura de abastecimento, detalha o gestor, será descentralizada. “Nós vamos ter o bioposto leste, visando utilizar uma área em função da quantidade de veículos. Ali vai ser só o ponto de abastecimento, que demora em torno de 20 minutos. Abastece como fosse um posto e volta para a garagem. O consumo de quilometragem ociosa não é tão expressivo“, avalia Lucas.
A sustentabilidade da operação, no entanto, depende não apenas dos veículos e da infraestrutura de abastecimento, mas da origem do combustível. O biometano que alimentará os primeiros ônibus terá sua produção nacionalizada em breve. “Num primeiro momento, nós traremos carretas carregadas com o combustível. Já fizemos o lançamento da pedra fundamental de uma usina que vai ficar em Guapó, uma cidade a 40 km de Goiânia. Também construiremos um gasoduto para trazer esse gás até aqui“, antecipa Lucas. A localização estratégica da usina permitirá o aproveitamento de diferentes fontes de matéria-prima. “A vantagem da usina é que ela pode fazer tanto o biometano do lixo quanto do aproveitamento da cana, que é uma natureza econômica de Goiás“, complementa.
Vantagens

Os ganhos ambientais projetados impressionam. Patrick Lucas quantifica: “Só por meio dos oito veículos, vamos deixar de emitir em CO2 aproximadamente 10 vezes o que eu emito em diesel. Hoje seria em torno de 1.700 toneladas de CO2, passando para no máximo 167.” Para dar uma referência tangível, o gestor acrescenta que essa redução equivale aproximadamente a 3.000 árvores plantadas que cresçam nos próximos 20 anos. “Se a gente fizer a regra de três para os 101 veículos, a gente tá falando aí de quase 50.000 árvores plantadas.”
A transformação, no entanto, vai além da frota e da infraestrutura. Ela alcança a qualificação profissional e o desenvolvimento de novas competências técnicas no estado. “O veículo a biometano é ciclo Otto. Então não é qualquer mecânico que vai mexer, não é qualquer eletricista que vai mexer. A gente vai gerar capacitação nesse pessoal, crescimento e oportunidade. Estamos entrando com a tecnologia do gás, que é um modal que requer investimento e conhecimento“, afirma Lucas, apontando para a necessidade de formar uma nova geração de profissionais especializados.
