Brasil avalia desenvolver seu próprio sistema de navegação por satélite

Grupo técnico formado por governo e indústria analisará viabilidade de sistema nacional de geolocalização, reduzindo dependência de tecnologias estrangeiras como o GPS dos EUA

Por Gustavo Queiroz

- julho 24, 2025

Brasil estuda alternativas ao GPS e mira soberania em geolocalização

Um grupo de especialistas brasileiros iniciará estudos para avaliar a viabilidade de o país desenvolver seu próprio sistema de navegação por satélite, um projeto de alta complexidade e custo elevado. A iniciativa, liderada por representantes de ministérios, da Aeronáutica, agências federais e da indústria aeroespacial, tem como objetivo analisar os riscos de depender exclusivamente de sistemas controlados por outras nações, como o GPS (Global Positioning System), operado pelos Estados Unidos.

Criado no início de julho por meio da Resolução nº 33 do Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro, o grupo terá 180 dias para apresentar um relatório ao ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Marcos Antonio Amaro dos Santos. A análise incluirá os desafios técnicos, financeiros e estratégicos de um sistema próprio, que poderia ser global (cobrindo todo o planeta) ou regional (restrito ao território brasileiro).

Atualmente, o Brasil utiliza principalmente o GPS estadunidense, mas também tem acesso a outros sistemas globais, como o GLONASS (Rússia), o Galileo (União Europeia) e o BeiDou (China). Além disso, países como Índia e Japão mantêm sistemas regionais.

Rodrigo Leonardi, diretor da Agência Espacial Brasileira (AEB), explica que a discussão sobre um sistema nacional já vinha sendo conduzida antes de recentes rumores nas redes sociais sobre uma possível interrupção do GPS para o Brasil em meio a tensões comerciais. “Este é um típico caso de ruído surgido nas mídias sociais. Não houve nenhum comunicado oficial dos EUA sobre restrições, e mesmo que ocorresse, há alternativas ao GPS. Mas é importante discutir nossa autonomia“, afirma o executivo.

Apesar disso, especialistas destacam que a soberania tecnológica é essencial para a segurança nacional. Geovany Borges, professor da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em robótica, ressalta que, embora os EUA dificilmente cortariam o sinal do GPS sem aviso prévio – pois isso afetaria suas próprias empresas e a aviação civil –, um sistema próprio daria mais resiliência ao Brasil. “Várias áreas perdem com a dependência externa. Um país independente precisa de um setor aeroespacial forte, e o desenvolvimento dessa tecnologia beneficia indústrias como medicina, agropecuária e defesa“, analisa o acadêmico

O maior obstáculo para um sistema brasileiro de navegação por satélite é o investimento necessário, que superaria em muito os atuais gastos do programa espacial nacional. Além disso, o país precisaria dominar tecnologias críticas, como a fabricação de satélites de alta precisão e o lançamento de uma constelação orbital. Leonardi admite que o projeto exigiria décadas de desenvolvimento e parcerias com o setor privado. “Se o país decidir avançar, terá que aumentar significativamente os investimentos no programa espacial“, afirma.

Borges concorda e acrescenta que o Brasil tem mão de obra qualificada, mas falta financiamento contínuo: “Nosso problema não é recursos humanos, é dinheiro. Precisaríamos desenvolver uma indústria de microeletrônica e garantir que o projeto seja uma política de Estado, não apenas de governo“, pondera em defesa da soberania nacional.

Enquanto o grupo técnico avalia os cenários, o Brasil pode adotar medidas intermediárias, como fortalecer o uso de sistemas alternativos (Galileo, GLONASS, BeiDou) em aplicações críticas; investir em receptores multiconstelação, que captam sinais de vários sistemas simultaneamente, aumentando a redundância; além de desenvolver parcerias internacionais para acesso a tecnologias de navegação por satélite.

A decisão final dependerá do relatório do grupo, que deve ser concluído em janeiro de 2026. Se aprovado, o projeto colocaria o Brasil em um seleto grupo de nações com tecnologia própria de geolocalização, um passo estratégico para sua autonomia tecnológica e segurança nacional.

Com informações da Agência Brasil.

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