Depois de anos de domínio das transmissões mecânicas nos veículos comerciais e, mais recentemente, das versões automatizadas e automáticas, os fabricantes desses componentes se preparam para um novo e gigantesco desafio. O motivo é o avanço da eletrificação em caminhões e ônibus em nível mundial, que vem obrigando a indústria de powertrain a repensar o seu futuro, diante da profunda disruptura com as tecnologias atuais.
È certo que a plena aceitação das transmissões elétricas deve levar um bom tempo ainda, em especial em mercados emergentes como o Brasil. Sem contar o fato da nova tecnologia estar ainda em fase de desenvolvimento, com inúmeras barreiras a vencer até a produção em massa desses componentes.

A afirmação tem o aval de Rogério Pires, diretor da divisão de veículos comerciais da Voith, ao admitir que os fabricantes de veículos comerciais ainda discutem e tenta entender qual é o futuro das transmissões.
“Esse é o grande dilema da indústria no momento. É um desafio financeiro enorme. Não podemos abandonar a tecnologia atual, mas também não podemos ficar para trás na eletrificação”. A solução, então, é manter o desenvolvimento de transmissões convencionais e, ao mesmo tempo, investir em soluções elétricas.
No caso dos ônibus 100% elétricos, o ideal é eliminar a transmissão mecânica, conectando o motor diretamente ao eixo para maximizar a eficiência. Entretanto, em aplicações pesadas, como caminhões de grande porte e ônibus articulados, a necessidade de torque extra exige a integração de redutores ou até mesmo de transmissões automatizadas.
Rogério lembra que no caso brasileiro, onde a infraestrutura para comportar veículos pesados elétricos ainda não é suficiente, os híbridos surgem como uma boa alternativa. O executivo cita o caso de Curitiba e seus ônibus, que adotam uma transição mais gradual em comparação a São Paulo, por exemplo.
Recuperação de energia
Mais interessante de tudo é que esse novo patamar do componente agrega ainda mais poder tecnológico aos veículos. Uma das grandes inovações nas transmissões automáticas com sistemas híbridos incorporados e nas transmissões elétricas é a recuperação de energia durante a frenagem. Sistemas híbridos já em uso na Europa permitem que a energia cinética seja convertida em eletricidade e armazenada em baterias, alimentando não apenas a tração, mas também sistemas auxiliares como ar-condicionado e iluminação. “Economizamos mais de 15% em combustível com essa tecnologia. Além disso, reduzimos a dependência de alternadores, diminuindo custos de manutenção“, explica o especialista.

O executivo lembra que empresa disponibiliza atualmente o sistema VEDS (Voith Electrical Drive System), que já equipa mais de 1.000 ônibus da frota da Tfl de Londres (foto).
No caso da nova transmissão para veículos comerciais Diwa NXT de sete velocidades associada à solução híbrida leve (Mild hybrid), várias cidades ao redor do mundo tem desfrutado do potencial de economia de combustível com um nível bastante adequado de investimento no veículo.
Um outro atrativo dessa nova tecnologia é a melhor integração com os sistemas de assistência à condução, como frenagem automática e controle adaptativo de velocidade. “A transmissão está evoluindo para ser o ‘gestor’ do trem de força’, integrando-se ao motor e aos sistemas de frenagem para otimizar o consumo energético”. Olhando para o futuro, a tendência é que motoristas tenham cada vez menos responsabilidades ao volante, bem como menos intervenções diretas, sobrando tempo e atenção para situações críticas que exigem e dependem de decisão humana.
Manutenção estendida em transmissões para veículos comerciais
A disruptura com as transmissões convencionais também se aplica à manutenção do componente. Para as transmissões automáticas, assim como futuramente nas elétricas, adota-se um princípio preventivo para conseguir uma maior disponibilidade do veículo, diferente da abordagem corretiva, já que servem a um propósito comercial. “Usamos o monitoramento eletrônico do próprio equipamento para programar e equilibrar o custo quilométrico. Com isso, sua vida útil pode ultrapassar 1 milhão de quilômetros, como um case registrado na Colômbia em veículos com transmissão automática com quase 20 anos de operação”, comenta Rogério. Tão importante quanto, a sustentabilidade é favorecida com essa manutenção preventiva que reduz o descarte de peças inservíveis, assim minimizando o impacto ambiental.
Na visão de Rogério Pires, os principais entraves para adoção total de transmissões eletrificadas estão nos altos valores iniciais, aliados às elevadas taxas de juros que encarecem o custo total de propriedade. Por isso, ele acredita que a adoção será gradual, impulsionada pela pressão de transportes sustentáveis na sociedade, mas também pela busca por mais eficiência e melhores resultados em veículos comerciais.
