Em coletiva de imprensa realizada em São Paulo, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) apresentou um balanço técnico do desempenho do setor em 2025, ano marcado por crescimento tímido diante de um cenário macroeconômico desafiador, com destaque para uma severa retração no segmento de veículos pesados. O presidente da entidade, Igor Calvet, detalhou os números e apontou o recém-lançado Programa Move Brasil como a principal ferramenta para estabilizar um mercado de caminhões que acumulou uma queda de 20,5% nas vendas de modelos pesados no ano passado.
A produção nacional de autoveículos atingiu 2.644.054 unidades em 2025, um incremento de 3,5% sobre o ano anterior, mantendo o Brasil como o oitavo maior produtor global. O mercado interno, por sua vez, registrou 2.689.634 emplacamentos, alta de 2,1%, consolidando o terceiro ano consecutivo de expansão, ainda que abaixo das projeções iniciais da entidade. “É o terceiro ano consecutivo em que há um aumento nos emplacamentos no país. Diante das dificuldades e instabilidades do ano de 2025, o setor sai sim, positivamente“, avaliou Calvet.
Contudo, a performance agregada escondeu uma forte divergência entre segmentos. Enquanto os veículos leves (automóveis e comerciais leves) tiveram alta de 4,5% na produção, o segmento de pesados (caminhões e ônibus) sofreu uma retração de 9,9%. O foco principal da preocupação da indústria recaiu sobre os caminhões, especialmente os pesados, cujo emplacamento despencou 20,5% em 2025, com uma queda de 9,2% no total do segmento. Em contrapartida, o mercado de ônibus apresentou um comportamento positivo, com alta de 6,8% nos licenciamentos.
“O que aconteceu no mercado de caminhões foi, como eu já mostrei, o campeão das avessas. Podemos dizer que foi o que aconteceu de pior no mercado automotivo no ano de 2025, essa queda de 20,5% no emplacamento de caminhões pesados“, afirmou Calvet, atribuindo a crise principalmente aos patamares elevados da taxa de juros, que inviabilizaram as contas de transportadores autônomos e frotistas.
Como resposta a essa crise setorial, o governo federal instituiu o Programa Move Brasil, linha de crédito de R$ 10 bilhões com prazos de até 60 meses e taxas subsidiadas, variando entre 11,8% e 13,9% ao ano. Calvet definiu a iniciativa como uma “medida desfibrilatória” para o setor. “O programa, portanto, destrava, de certa forma, esse mercado de caminhões que estava vindo num processo bastante ruim. E o principal problema, como já alertado pela Anfavea, eram as altas taxas de juros“, declarou. Segundo o executivo, clientes podem antecipar compras programadas para mais adiante para se beneficiarem desta vantagem.
O presidente da Anfavea explicou que o impacto concreto do programa nas vendas ainda está sendo mensurado, uma vez que sua operacionalização começou há aproximadamente 15 dias. No entanto, ele adiantou que há demanda reprimida e que a medida deve funcionar como um estabilizador. “A importância [do Move Brasil] foi para refrear uma queda grande. Portanto, prevemos uma estabilidade no mercado de pesados em 2026, por enquanto“, projetou, esperando que os caminhões pesados, mais afetados pela crise, sejam os maiores beneficiados.
Para 2026, a Anfavea, em parceria com o Itaú BBA para análises macroeconômicas, projeta um cenário de “otimismo contido”. As expectativas são de um crescimento de 2,8% nas vendas de veículos leves, estabilidade (com leve queda de 0,5%) para os pesados, alta de 1,3% nas exportações e incremento de 3,7% na produção total, que deve alcançar 2,74 milhões de unidades. “É um ano que nós vemos um crescimento, mas um ano que nos traz bastantes dúvidas e instabilidades”, ponderou Calvet, citando a indefinição sobre a trajetória da taxa básica de juros e as discussões pendentes sobre reforma tributária.
Outro tema técnico de alta relevância abordado foi o das cotas de importação para veículos em kits (SKD/CKD), que expiram em 31 de janeiro de 2026. Calvet fez um apelo veemente para que não haja prorrogação, alertando para riscos à base industrial nacional. “Nossa preocupação é um processo de empobrecimento da base industrial brasileira“, afirmou, apresentando um estudo interno que estima, em um cenário extremo de migração total para montagem de kits, uma perda de R$ 3 bilhões em compras de autopeças, risco a 69 mil empregos diretos nas montadoras e impacto de R$ 42 bilhões nas exportações.
O executivo também comentou o forte crescimento de 60,8% no emplacamento de veículos eletrificados (híbridos, híbridos plug-in e elétricos) em 2025, que passaram a representar 11,2% do mercado total (285 mil unidades). Desse volume, 73 mil unidades foram produzidas nacionalmente. Para 2026, a expectativa é de que a produção local dessas tecnologias ganhe ainda mais participação, na esteira dos investimentos anunciados.
Acordo Mercosul-União Europeia
Em meio às projeções para o ano, Calvet também abordou os potenciais impactos do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, recentemente retomado. Ele classificou o entendimento como “bom para a economia brasileira” e uma “inevitabilidade”, mas alertou para os desafios competitivos que ele impõe ao setor automotivo local. “Para veículos leves a combustão, nós temos um cronograma de desgravação em 15 anos, com uma carência de cerca de sete anos antes do início da redução tarifária linear“, explicou.
O ponto de maior atenção, no entanto, está nos veículos eletrificados, que teriam um tratamento diferenciado. “Nos veículos eletrificados, o que aconteceria é uma redução imediata de 20% para 25% do imposto no ano zero, com desgravação linear até o ano 15, sem carência“, detalhou o presidente.
Para a Anfavea, esse período de transição é crucial. “Esse período de carência é um período de preparação do Brasil. É bom ter o desafio porque também estabelece um tempo: olha, em 7 anos nós temos que ajustar todos os gargalos da nossa competitividade“, finalizou Calvet, ressaltando que a entidade apoia o acordo, mas monitora de perto seus desdobramentos e o cenário de internalização pelos parlamentos.
