Enquanto o debate público sobre mobilidade urbana se concentra em veículos autônomos, tarifa zero e no desafio de como integrar os sistemas de transportes, a Motiva Mobilidade S.A. está decodificando os desafios do chamado último quilômetro – a etapa final e mais custosa das entregas – por meio de uma abordagem que mescla hardware robusto, software integrado e um modelo de negócio flexível. A missão é tangível e consiste em substituir a frota de motocicletas a combustão, dominante e poluente, por uma infraestrutura conectada de veículos elétricos leves (LEVs).
O vertiginoso crescimento do comércio eletrônico e do delivery por aplicativos agravou os problemas do frágil ecossistema de trânsito urbano, gerando não apenas congestionamento, mas um aumento exponencial nas emissões de CO₂ e material particulado. A resposta da Motiva não é um único produto, mas um sistema que contempla uma frota modular de veículos, uma plataforma de gestão e um esquema de acesso que vai da venda direta à locação, projetado para reduzir a barreira de entrada para motofretistas e grandes operadoras logísticas.

A peça central deste sistema é o MT15C, um triciclo elétrico com um chassi que equilibra 1524 mm de entre-eixos e uma altura do solo de 180 mm, sendo que sua engenharia prioriza a estabilidade dinâmica sob carga. A potência é gerada por dois motores BLDC (Brushless Direct Current) de 72V e 200A embutidos no cubo das rodas traseiras, oferecendo uma potência nominal combinada de 6 kW (8 cv) e picos de até 14 kW (19 cv). O torque instantâneo característico dos elétricos, de 36 Nm, é direcionado para a aceleração em baixa e média velocidade, crucial para deslocamentos urbanos com paradas frequentes.
A capacidade de carga, de 140 kg distribuídos em um baú principal de 462 litros e um auxiliar de 38 litros, é o argumento definitivo contra a motocicleta tradicional. O volume útil de 500 litros e a estabilidade inerente da configuração de três rodas (com pneu dianteiro 110/70-17 e traseiros 90/90-12) permitem transportar o equivalente a cerca de três grandes caixas de supermercado, algo impensável e perigoso em uma moto comum. Apesar do peso próprio de 280 kg e da capacidade total (veículo, piloto e carga) de 500 kg, o MT15C atinge uma velocidade máxima eletronicamente limitada de 110 km/h, mais do que suficiente para vias urbanas e perimetrais.
O verdadeiro salto tecnológico, porém, reside na arquitetura modular e na gestão inteligente. A Motiva oferece pacotes de baterias de íon-lítio com densidades energéticas distintas, incluindo 7,6 kWh para uma autonomia média de 130 km (17 km/kWh) e 20 kWh para até 300 km (15 km/kWh). A modularidade permite ajustar o custo inicial e o peso do veículo à necessidade operacional real.
A gestão da frota é elevada a outro patamar através de parcerias com desenvolvedoras de telemetria, que garantem a transmissão de dados em tempo real, contemplando localização, consumo de energia, status da bateria, comportamento do condutor e diagnósticos de manutenção preditiva.
Num projeto em cooperação com laboratórios da Unicamp, a empresa avança no front da inteligência artificial aplicada à dinâmica veicular por meio de um sistema de automação de equilíbrio. Utilizando sensores giroscópicos e algoritmos de aprendizado de máquina, o sistema atua de forma proativa nos motores para compensar desníveis, curvas fechadas com carga assimétrica ou até mesmo rajadas de vento lateral, aumentando significativamente a segurança e reduzindo a curva de aprendizado do condutor.

A conexão sináptica com o Parque Tecnológico da Indústria não é meramente geográfica. É um canal de validação cruzada. “O Parque nos proporciona um ambiente controlado, porém realista, para testes de estresse, durabilidade de componentes e integração de sistemas. É onde a teoria da engenharia da UTFPR, PUC-PR e USP encontra o asfalto, antes de escalarmos para a produção comercial“, explica Luiz Osório Vendrami Trentini, CEO da Motiva.
A estratégia de desenvolvimento é colaborativa, envolvendo desde a engenharia da Mobilis até especialistas em design ergonômico, focando em pontos críticos como a altura do assento (769 mm) para fácil acesso e a posição de condução que minimiza a fadiga em jornadas de 8 a 10 horas.
Por fim, a Motiva está em negociações por parcerias industriais e financeiras, bem como na viabilização de testes-piloto com empresas de logística e delivery, bem como mantém diálogo com locadoras e o poder público.
“A expectativa é avançar na integração do MT15C com softwares de gestão de rotas, tempos de entrega e desempenho. O desafio está em equilibrar tecnologia, custo e simplicidade, para que o veículo seja eficiente e viável no dia a dia das operações”, finaliza Trentini.
