Mercedes-Benz abre comemorações dos 130 anos de caminhões

De um motor de 4 cv com correias ao eActros 600 que enxerga 270 graus: feira na Alemanha reúne o primeiro caminhão do mundo e outros marcos na história da Daimler

Por Gustavo Queiroz

- fevereiro 16, 2026

primeiro caminhão Daimler de 1896

Nos corredores do centro de exposições de Stuttgart, onde o cheiro de óleo queimado e a gasolina antiga costumam pairar no ar como incenso para os amantes do motor térmico, a história não será apenas lembrada, mas ela ganhará vida. Entre os dias 19 e 22 de fevereiro de 2026, a Retro Classics, a maior feira de veículos clássicos da Europa, servirá de cenário para um espetáculo raro. A Mercedes-Benz Trucks Classic, ocupando 700 metros quadrados de estande, dará o pontapé inicial nas comemorações dos “130 Anos de Caminhões”, um acontecimento que promete transportar os cerca de 70 mil visitantes esperados por uma viagem no tempo sobre rodas.

É uma celebração de números redondos que se entrelaçam como as correias do primeiro motor. Trinta anos do Actros, oito décadas de Unimog, 75 primaveras da Setra. Mas, no centro de tudo, pulsando como um coração mecânico, estará a reconstrução meticulosa de um ícone: o primeiro caminhão Daimler de 1896. Ali, sob os holofotes, o visitante poderá contemplar a criatura que Gottlieb Daimler apresentou ao mundo há 130 anos. Um artefato que parece ter saído de uma oficina de brinquedos, mas que carrega a gênese de uma revolução. Seu motor traseiro de dois cilindros “Phoenix”, um coração pulsante de 1,06 litro que gerava modestos quatro cavalos de potência, acionava o eixo traseiro por um sistema rudimentar de correias. Molas helicoidais protegiam o delicado motor das trepidações, enquanto o eixo dianteiro era orientado por correntes. O motorista, em seu posto elevado como um cocheiro, olhava para um futuro que ele mesmo ajudava a construir, sem saber que, atrás de si, já residia um princípio que perdura até hoje nos pesados caminhões de carga: o eixo planetário de cubo.

A ousadia daqueles primeiros anos não parou por ali. Em 1898, numa olaria onde os veículos eram testados no suor e no barro antes de ganharem o mundo, a Daimler já dava o próximo passo evolutivo. O motor migrou para debaixo do assento do motorista e, logo depois, saltou para a frente do eixo dianteiro, um layout que permitiria mais potência e carga. Era o início de uma saga que, em 1899, já atravessava o Canal da Mancha, entregando os primeiros exemplares à Inglaterra e à França, onde venceram a fumaça e o carvão dos veículos a vapor. Em 1900, na Exposição Universal de Paris, o mundo os viu. E, num lampejo de visão global, a Daimler já fincava bandeira em Long Island City, Nova York, através da Daimler Manufacturing Company.

Avançando um século, o estande da Mercedes-Benz traça um arco temporal que encontra seu próximo grande marco em 1996. Ali, reluzente, estará um dos primeiros Actros, trinta anos após sua estreia na IAA. Ele não é apenas um caminhão; é um divisor de águas. O Actros personificou a metamorfose do veículo comercial bruto para uma ferramenta de trabalho sofisticada e eletronicamente conectada. Foi o primeiro a ostentar um barramento de dados CAN, freios eletrônicos e a cabina MegaSpace, que redefiniu o conforto do motorista. E, como se o destino fosse escrito em aniversários, em 2006 ele se tornou pioneiro em segurança ativa com o Active Brake Assist, um sistema que, em 2026, também sopra velinhas.

Daquele Actros pioneiro até o moderníssimo eActros 600 Safety Truck, exposto ao lado, a evolução é um abismo tecnológico. Onde o pioneiro de 1896 tinha rodas de ferro maciço e direção por corrente, o Safety Truck de 2026 é um gigante com um cérebro. Seu sistema de fusão sensorial de 270 graus, o Active Brake Assist 6 e o Active Sideguard Assist 2 o elevam à categoria de um dos veículos mais seguros do planeta, um laboratório sobre rodas que já antecipa legislações futuras e aponta o caminho para o “acidente zero”.

Transporte de passageiros

Mas a narrativa não se resume aos caminhões. Em 2026, a Setra, celebra 75 anos de sua revolução silenciosa. Em 1951, numa concessionária Kässbohrer nos arredores da IAA em Frankfurt, o mundo viu nascer o primeiro ônibus com carroceria autoportante da Alemanha. Para celebrar, um magnífico Setra S 8 vermelho e bege de 1954, vindo da coleção de Neu-Ulm, estará presente. Com seus 9,3 metros de comprimento e 29 assentos, ele é movido por um seis-cilindros em linha Henschel de 100 cv, um legado vivo da engenhosidade que uniu chassi e carroceria num só corpo.

Estande

O estande da Mercedes-Benz será um verdadeiro museu vivo, um desfile de marcos que inclui um caminhão de cardã Daimler de 1899 (em restauração ao vivo numa oficina de vidro no Museu de Speyer), um L 1500 a gás de madeira de 1937, testemunho de uma época de escassez e criatividade, e ícones do pós-guerra como o L 4500 e o LP 608. O Unimog, completando 80 anos, mostrará suas faces com um modelo de 1946 e um U 416 de 1978. Haverá até espaço para a pura emoção das pistas, com o Atego Race Truck do ano 2000, uma máquina de competição que ainda hoje acelera corações.

Para além da contemplação estática, a Mercedes-Benz preparou uma experiência sensorial. Às 12h30 de cada dia, o rugido do motor de 1896 e o ronco potente do Race Truck se alternarão num duelo de épocas, um concerto para os ouvidos mais apaixonados. Os visitantes poderão ainda interagir com uma oficina de troca de pneus, ver de perto modelos rádio-controlados operados por seus próprios criadores e trocar ideias com especialistas do Museu de Speyer e da Mercedes-Benz Trucks Classic.

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