A Hyundai Motor colocou oito unidades do modelo XCIENT Fuel Cell no Uruguai, marcando a primeira operação real de caminhões Classe 8 movidos a hidrogênio em território sul-americano. O projeto, batizado de Kahirós, sai do estágio de demonstração para atender à logística concreta de descarbonização do transporte de madeira no país vizinho, combinando hidrogênio verde, infraestrutura dedicada e um consórcio empresarial estruturado com financiamento internacional.
Quando a Hyundai Motor anunciou em 2020 os primeiros caminhões a célula de combustível na Europa, a tecnologia ainda soava como promessa distante para a América do Sul. Seis anos depois, o cenário mudou. Oito unidades do XCIENT Fuel Cell já estão circulando em estradas uruguaias, e a operação não é um piloto experimental nem um exercício de relações públicas. Se trata de uma demanda logística real, que é descarbonizar a cadeia de transporte de madeira, com rotas definidas, frota dedicada, produção local de hidrogênio verde e um horizonte de dez anos.

“A escolha do Uruguai não foi aleatória nem circunstancial”, afirma Ricardo Martins, vice-presidente administrativo da Hyundai Motor para as Américas Central e do Sul, em entrevista à Frota&Cia. “Ela decorre de uma combinação de fatores que permitiram iniciar uma operação real, comercial e integrada de caminhões a hidrogênio”, complementa.
O país, de fato, oferece um ambiente incomum na região. Sua matriz elétrica é praticamente 100% renovável — o que garante hidrogênio de baixíssima pegada de carbono desde a origem —, somado a um ambiente regulatório estável, decisões governamentais ágeis e parceiros locais capazes de estruturar rapidamente toda a cadeia, da produção ao uso final. O Projeto Kahirós, que reúne as empresas uruguaias Ventus, Fraylog e Fidocar em um consórcio, recebeu investimento de US$ 40 milhões do Grupo Santander e conta com o apoio da International Financing Corporation (IFC), braço do Banco Mundial, e de um fundo de inovação da ONU.
“O Projeto Kahirós oferece algo fundamental para uma tecnologia emergente: previsibilidade e controle operacional”, explica Martins. “Estamos falando de uma aplicação logística real, possibilitada pela produção local de hidrogênio verde e financiamento estruturado. Isso transforma o Uruguai em um ambiente ideal para validar a tecnologia”, justifica Martins.
O executivo faz questão de diferenciar a abordagem uruguaia daquela adotada em mercados de maior porte, como Brasil e Chile. “Países como Brasil e Chile continuam sendo estratégicos para a Hyundai no médio e longo prazo. Eles têm enorme potencial em hidrogênio verde, mas ainda estão em fases diferentes de maturidade regulatória e de infraestrutura. Optar pelo Uruguai foi uma decisão pragmática de iniciar onde o ecossistema já permitia sair do discurso e ir direto para a operação real.”
A infraestrutura planejada para o projeto inclui um parque solar de 4,8 MW e uma usina de eletrólise com capacidade anual de 77 toneladas de hidrogênio verde, cujo início de operação está previsto para novembro deste ano. Seis caminhões comporão a frota principal, percorrendo cerca de um milhão de quilômetros anualmente, enquanto duas unidades adicionais atuarão como reserva para garantir a continuidade do serviço.
Um laboratório de dez anos
O horizonte temporal do Projeto Kahirós, de uma década de operação contínua, não é casual. Ele reflete uma visão de negócios que a Hyundai constrói para a região, na qual a descarbonização do transporte pesado não se resolve em ciclos curtos de demonstração tecnológica. “A descarbonização do transporte pesado não acontece em ciclos curtos; ela exige estabilidade, escala progressiva e aprendizado operacional contínuo. Por isso, desde o início, o projeto foi estruturado como uma operação duradoura, com metas reais de desempenho, custo e confiabilidade”, destaca Martins.

O executivo descreve a iniciativa como um “laboratório vivo em ambiente comercial”. “Ele permite validar o modelo de negócios completo, contemplando a produção local de hidrogênio verde, logística de abastecimento, operação de frota, manutenção, capacitação técnica e viabilidade econômica ao longo do tempo”, ilustra.
Esse aprendizado, segundo Martins, é o que permitirá à Hyundai escalar a tecnologia para mercados maiores e mais complexos na região. “Ao operar por uma década em condições reais, conseguimos entender como a tecnologia se comporta ao longo de todo o ciclo de vida do ativo, algo essencial para aplicações em mercados maiores e mais complexos. O que o Uruguai oferece é um ambiente controlado, previsível e maduro o suficiente para consolidar o modelo antes de levá‑lo a outros mercados da região, adaptando‑o às suas escalas, rotas e necessidades específicas”, esclarece.
Para quem está focado
A escolha da cadeia de madeira e celulose como aplicação âncora para o primeiro projeto sul-americano também obedece a uma lógica estratégica. A Hyundai não está lançando a tecnologia de forma pulverizada e, portanto, se concentra em setores que já possuem pressão por descarbonização, cadeias logísticas bem definidas e operação intensiva de transporte.

“A Hyundai adota uma abordagem estratégica e focada para acelerar a adoção do hidrogênio no transporte pesado. Em mercados onde a tecnologia ainda está em fase de introdução, faz sentido começar por setores que já possuem metas ambientais claras, cadeias logísticas bem definidas e operação intensiva de transporte, como madeira, celulose, papel, mineração e alguns segmentos do agronegócio”, revela Martins.
O executivo enumera três fatores decisivos nesses segmentos, sendo eles a alta intensidade energética, pressão crescente por descarbonização ao longo da cadeia de valor e rotas relativamente previsíveis, o que facilita a implantação de infraestrutura dedicada de hidrogênio. “No caso específico do Projeto Kahirós, a cadeia da madeira e da celulose é um exemplo claro, porque empresas globais desse setor têm compromissos ambientais sólidos e visão de longo prazo”, explica.
Martins ressalta que a decisão não é apenas ambiental, mas também de lógica econômica. “Ao iniciar em setores com metas claras de redução de emissões, conseguimos acelerar a curva de aprendizado, estruturar modelos de negócio viáveis e criar referências concretas de uso real da tecnologia. Na América do Sul, essa estratégia faz ainda mais sentido. Existem corredores logísticos maduros nesses setores, com grande volume de transporte pesado e potencial de produção local de hidrogênio verde”, analisa.
Consórcio
Diferentemente do que ocorre em mercados maduros como Europa e América do Norte, onde a Hyundai vende ou opera os caminhões diretamente, a entrada na América do Sul se dá por meio de um consórcio formado pelas empresas Ventus, Fraylog e Fidocar com forte apoio financeiro do Santander e de instituições multilaterais. Para Martins, esse arranjo não é um modelo único, mas sim uma resposta às condições específicas do Uruguai e do estágio de maturidade do hidrogênio na região.
“O modelo adotado no Uruguai reflete muito mais as condições específicas do projeto e do país do que uma regra única para toda a América do Sul”, afirma. “No caso do Projeto Kahirós, a participação em um consórcio foi a forma mais eficiente de viabilizar a operação, integrando produção de hidrogênio, logística, frota, financiamento e operação”, complementa.
O executivo explica que o transporte a célula de combustível, especialmente em sua fase inicial, não se resume à venda de caminhões. “Ele exige coordenação entre diferentes agentes — energia, logística, operadores, financiadores e setor público. No Uruguai, esse ecossistema foi formado de forma colaborativa, com parceiros locais sólidos e apoio de instituições financeiras internacionais, o que reduziu riscos e acelerou a implementação”, conta.
Martins ressalta, no entanto, que a flexibilidade será a regra na América do Sul. “Em alguns mercados, pode prevalecer um formato mais próximo ao europeu ou norte‑americano, com venda direta. Em outros, especialmente na fase inicial, modelos consorciados, parcerias público‑privadas ou estruturas financiadas por bancos de desenvolvimento podem ser o caminho mais rápido e eficiente. O que permanece constante é a estratégia da Hyundai em atuar de forma flexível, adaptando o modelo de negócios às condições locais, sempre com foco em viabilidade econômica, escala e impacto real na descarbonização do transporte pesado”, destaca.
HTWO
A plataforma HTWO, criada pela Hyundai para oferecer soluções de ponta a ponta na cadeia do hidrogênio, desde mobilidade até geração de energia e infraestrutura, representa a visão da empresa sobre seu próprio papel no mercado sul-americano. “Em alguns mercados, isso pode incluir participação mais ativa em projetos de abastecimento; em outros, apoio técnico, parcerias estratégicas ou modelos colaborativos, como o que vemos no Uruguai”, informa Martins.
Na prática, isso significa que a Hyundai pode atuar como facilitadora da conexão entre frotistas e produtores de hidrogênio, ou mesmo investir em infraestrutura de abastecimento dependendo do mercado.
