Entrevista: A dura prova sul-americana do XCIENT Fuel Cell | Parte 2

Produção local, estradas de terra, poeira e umidade são os desafios técnicos do XCIENT Fuel Cell no Uruguai. Conheça a estratégia para dez anos de operação

Por Gustavo Queiroz

- abril 7, 2026

Hyundai XCIENT Fuel Cell no Uruguai

Se a produção local de hidrogênio verde é a base para viabilizar o transporte pesado na América do Sul, as condições de infraestrutura e topografia da região impõem desafios técnicos que vão além da experiência acumulada na Europa e na América do Norte.

Em entrevista à Frota&Cia, Ricardo Martins, vice-presidente administrativo da Hyundai Motor para as Américas Central e do Sul, detalha como a montadora está adaptando o XCIENT Fuel Cell ao ambiente de nosso continente, passando por estradas de terra a altos níveis de poeira e umidade, bem como está estruturando uma estratégia de pós-vendas que inclui estoques dedicados de peças críticas, capacitação técnica local e monitoramento remoto, tudo para garantir a continuidade operacional da frota ao longo dos dez anos do Projeto Kahirós.

Combustível produzido localmente

O Projeto Kahirós prevê a produção local de hidrogênio verde via eletrólise, alimentada por energia solar. “A produção local de hidrogênio verde, como prevista no Projeto Kahirós, é hoje a forma mais segura e eficiente de iniciar uma operação de transporte pesado a hidrogênio em um mercado ainda em fase de construção. Produzir o hidrogênio próximo ao ponto de consumo reduz riscos de abastecimento, simplifica a logística e permite um controle mais preciso de custos e emissões, especialmente nas primeiras aplicações”, defende o executivo.

Ricardo Martins, vice presidente administrativo da Hyundai Motor para as Américas Central e do Sul
Martins: Mercado de H2 está evoluindo rapidamente | Foto: Divulgação

No entanto, Martins enxerga uma evolução progressiva do mercado. “O que estamos vendo globalmente e começamos a ver também na América do Sul é uma evolução progressiva do mercado, com o surgimento de diferentes formatos de suprimento, como a produção onsite, hubs regionais de hidrogênio, estações privadas ou públicas dedicadas e até soluções móveis em fases intermediárias.

Para futuros projetos no Brasil ou em outros países da região, a escolha do modelo de abastecimento dependerá do contexto local, como escala da operação, densidade das rotas, maturidade da infraestrutura, disponibilidade de hidrogênio e marcos regulatórios. “Em operações iniciais ou dedicadas, o modelo onsite tende a ser o mais robusto. À medida que o mercado amadurece, modelos mais compartilhados e abertos se tornam naturais”, explica Martins.

No entanto, o vice-presidente administrativo da Hyundai faz uma ressalva importante sobre a gradualidade da transição energética. “O objetivo maior é viabilizar a produção e uso de hidrogênio verde, que é a melhor opção para o meio ambiente. Mas as soluções de mobilidade por hidrogênio podem contemplar, principalmente em um primeiro momento, opções que não sejam exclusivamente verdes, ou seja, aquelas de baixo carbono, com alguma geração de emissões no processo. Essas emissões serão sempre imensamente inferiores à alternativa de transporte a combustão e ajudarão a estabelecer a rede de abastecimento do hidrogênio na região”, aponta.

Desafios técnicos

Embora o XCIENT Fuel Cell já tenha acumulado 20 milhões de quilômetros na Europa e 1,6 milhão na América do Norte, a Hyundai trata a entrada na América do Sul como uma etapa adicional de validação. As condições de infraestrutura e topografia na região apresentam desafios específicos — especialmente na logística florestal, com estradas não pavimentadas, poeira intensa, variações térmicas significativas e alta umidade.

De fato, embora o XCIENT Fuel Cell já tenha acumulado dezenas de milhões de quilômetros em operação na Europa e na América do Norte, a Hyundai trata a entrada na América do Sul como uma etapa adicional e importante de validação, justamente por conta das características específicas da região”, afirma Martins.

No caso do Projeto Kahirós, os caminhões operarão em condições bastante exigentes. “Isso nos permite avaliar o desempenho do sistema de célula de combustível, do conjunto elétrico e do veículo como um todo em um ambiente diferente daquele encontrado em corredores logísticos europeus”, comenta o executivo.

Martins explica que o foco técnico não está em reinventar a tecnologia, mas em validar e ajustar sistemas já existentes. “Os caminhões do projeto contam com monitoramento contínuo de parâmetros críticos, como eficiência do stack, gestão térmica, comportamento do sistema de ar e filtragem, além da resposta do powertrain em ciclos de carga pesada e operação prolongada. Aspectos como vedação, proteção contra poeira, durabilidade de componentes periféricos e estratégias de manutenção também serão acompanhados de perto”, detalha.

O executivo destaca que o XCIENT já é um caminhão produzido em série e amplamente validado globalmente. “O que o Uruguai oferece é a oportunidade de confirmar essa robustez em um novo contexto operacional, contribuindo para ajustes finos e para o aprimoramento contínuo do produto. E, claro, já temos toda uma estrutura de apoio implantada no Uruguai para dar a assistência aos caminhões respondendo rapidamente a qualquer intercorrência.”

Pós-vendas

Sistema de células de combustível do Hyundai XCIENT Fuel Cell
Sistema de células de combustível do Hyundai XCIENT Fuel Cell | Foto: Divulgação

A introdução de uma tecnologia inteiramente nova na América do Sul exige uma estratégia de pós-vendas desenhada desde o primeiro dia. “Um caminhão pesado só é viável se houver garantia de disponibilidade, confiabilidade e suporte técnico ao longo de todo o seu ciclo de vida e isso vale ainda mais quando falamos de uma nova tecnologia para a região”, fala Martins.

A primeira frente é a gestão de ferramentas essenciais e peças de reposição críticas, com estoques dedicados e planejamento logístico específico para os componentes do sistema de célula de combustível. “Isso garante resposta rápida e previsibilidade operacional desde o primeiro dia”, afirma o executivo.

A segunda frente é a capacitação técnica. Técnicos e engenheiros locais passaram por treinamentos especializados conduzidos pela Hyundai, abrangendo desde sistemas de alta tensão e hidrogênio até protocolos de segurança, diagnóstico e manutenção preventiva. “Esse processo é contínuo e evolui em paralelo à operação. Além disso, técnicos coreanos estão programados para se deslocar ao Uruguai para realizar treinamentos específicos com a equipe técnica do nosso distribuidor local, a Fidocar, garantindo que estejam plenamente capacitados para prestar o suporte e os serviços adequados aos caminhões Fuel Cell”, revela o vp.

A terceira frente é o monitoramento remoto e o suporte especializado. Os caminhões operam conectados, permitindo à Hyundai acompanhar dados de desempenho, antecipar necessidades de manutenção e apoiar a rede local com expertise global acumulada em milhões de quilômetros rodados na Europa e na América do Norte. “Esse modelo foi pensado para ser escalável”, conclui Martins. “À medida que novos projetos surjam na América do Sul, a estratégia de pós‑vendas será adaptada ao perfil de cada país.”

Modelo de vendas

Diferentemente do que ocorre com veículos de passeio, a Hyundai não está criando uma rede de concessionárias dedicadas a veículos comerciais a hidrogênio na América do Sul — pelo menos não neste estágio inicial. A abordagem, segundo Martins, é pragmática e evolutiva. “No continente, a estratégia da Hyundai não parte da criação imediata de uma rede dedicada para veículos comerciais a hidrogênio. O atendimento aos clientes é realizado de forma especializada por um time exclusivo do Escritório Regional da Hyundai para Américas Central e do Sul, responsável pelas áreas de Energia & Hidrogênio e Veículos Comerciais.

Esse time regional atua diretamente em todo o ciclo do projeto, desde os estudos de operação, avaliação de viabilidade técnica e econômica até a negociação dos veículos, garantindo uma abordagem consultiva, integrada e alinhada às necessidades específicas de cada cliente e aplicação.

No caso do Uruguai, a responsabilidade pelo atendimento técnico, manutenção e pós-vendas recai sobre o distribuidor parceiro da Hyundai, a Fidocar. “Por esse motivo, a Fidocar está recebendo todos os treinamentos necessários, incluindo capacitação em tecnologia de célula de combustível, sistemas de alta tensão e hidrogênio, além de protocolos específicos de segurança, diagnóstico e manutenção preventiva”, informa Martins.

Logística de peças

A continuidade operacional da frota ao longo de dez anos é um ponto central do Projeto Kahirós. A Hyundai estruturou sua logística de peças e suporte técnico para evitar paralisações não planejadas, combinando planejamento de estoques críticos, manutenção preditiva e suporte especializado.

O primeiro pilar dessa estratégia é o planejamento das ferramentas especiais e das peças críticas”, detalha Martins. “Componentes essenciais do sistema de célula de combustível, powertrain elétrico e sistemas auxiliares contam com estoques dedicados, definidos com base em análises de confiabilidade e na experiência acumulada da Hyundai em milhões de quilômetros rodados na Europa e na América do Norte. Isso permite resposta rápida sem depender exclusivamente de importações emergenciais”, complementa.

O segundo pilar é o suporte técnico especializado e a manutenção preventiva. “Os caminhões operam com monitoramento contínuo de dados, o que permite acompanhar o comportamento do sistema de célula de combustível, antecipar falhas potenciais e planejar intervenções antes que elas impactem a operação. Esse acompanhamento é feito em integração com equipes locais e especialistas globais da Hyundai”, conta o executivo.

Além disso, a equipe técnica local foi treinada para atuar em campo com autonomia, seguindo protocolos específicos para veículos a hidrogênio. Casos mais complexos contam com suporte direto da engenharia da Hyundai, garantindo escalonamento rápido e resolução eficiente. Martins observa que o próprio modelo de operação do projeto contribui para a confiabilidade. “Se trata de uma frota dedicada, com rotas conhecidas, ciclos bem definidos e um ambiente controlado. Isso permite calibrar estoques, manutenção e recursos técnicos com muito mais precisão do que em uma operação pulverizada.”

Sobre a existência de um armazém ou centro de distribuição dedicado exclusivamente a peças para os caminhões, o executivo esclarece: “Para o Projeto Kahirós, não está prevista a criação de um armazém ou Centro de Distribuição dedicado exclusivamente a peças para os caminhões. A estratégia adotada é garantir a disponibilidade operacional por meio da Fidocar, distribuidora parceira, que será responsável pelo suporte técnico local. A empresa contará com todas as ferramentas especiais, equipamentos de diagnóstico e o estoque de peças essenciais necessários para realizar as atividades de manutenção, reparo e atendimento aos veículos.”

Leia a parte 1 da entrevista clicando aqui: Entrevista: Hyundai XCIENT é o primeiro caminhão a h2 da América do Sul | Parte 1

 

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