Estudo aponta alta de até 414% na carga tributária do transporte agrícola; setor acende alerta

Levantamento projeta impacto de R$ 144 mi. Para o SINTROPAR, pequenos transportadores serão os mais afetados e o custo chegar ao consumidor

Por Victor Fagarassi

- julho 30, 2026

Estudo aponta alta de até 414% na carga tributária do transporte no agro; setor acende alerta

A reforma tributária entrou na reta final de regulamentação e os números que começam a surgir preocupam o Transporte Rodoviário de Cargas (TRC). Um estudo divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) estima que as transportadoras ligadas ao agronegócio poderão enfrentar um aumento de até 414% na carga tributária com a implementação do novo modelo. A análise foi baseada em dados reais de empresas associadas à Associação Nacional das Empresas Agenciadoras de Transporte de Cargas (ANATC), considerando as operações realizadas ao longo de 2025. Com base nesse cenário, a estimativa é de um impacto financeiro superior a R$ 144 milhões no transporte no agro.

O número acendeu um alerta no Oeste do Paraná, região estratégica para o escoamento de grãos, proteínas e insumos agrícolas.

“O transporte não produz custo, ele transmite o custo para toda a cadeia. Se o custo do transporte sobe, toda a cadeia produtiva sobe”, afirma DiegoNazari, representante do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Oeste do Paraná (Sintropar). “Se temos hoje uma carga tributária que vai se elevar, com certeza não é só o transporte o impactado; estamos falando da esfera econômica no geral. De certa maneira, vejo a reforma tributária como algo ruim para o consumidor final, para nós brasileiros, porque isso vai se refletir na gôndola do supermercado.”

O peso nos pequenos

Fundado em 1987, o Sintropar reúne hoje mais de mil associados de segmentos que vão do transporte refrigerado ao de inflamáveis, passando por granéis sólidos e líquidos. Para o sindicato, o grau de preparo das empresas para a transição tributária é muito desigual, e aí mora o principal risco.

Sede do SINTROPAR
Sede do SINTROPAR

“As transportadoras estão buscando equilíbrio econômico desde a guerra da Rússia, quando nós que trabalhamos no agronegócio fomos muito impactados na cadeia do fertilizante”, explica Diego. “A taxa Selic vem se comportando de forma agressiva ao longo dos anos, e muitas transportadoras financiam as operações de diversos clientes: recebemos em 30, 60, 90, 120, 180 dias, são várias modalidades de recebimento. Portanto, a taxa Selic já é uma dor para nós.”

Some-se a isso, segundo ele, o agravamento do preço do combustível com a guerra no Oriente Médio e as exigências regulatórias que já vinham se acumulando, como o CIOT e a tabela mínima de frete. “Já vínhamos com vários fatores empurrando esse equilíbrio para o lado negativo, e a reforma tributária vem para pesar ainda mais esse equilíbrio para o lado negativo.”

O diagnóstico mais preocupante, no entanto, está na base da pirâmide. “Temos mais de 3.800 caminhões rodando no Brasil, e mais de 40% disso são autônomos, pequenos transportadores. O pequeno transportador, aquele motorista que tem dois caminhões, não tem estrutura administrativa, física e contábil para gerir toda essa mudança tributária. Esse vai sofrer um pouco mais em termos de organização. As grandes companhias já estão estruturadas com seus setores contábeis e jurídicos para otimizar algumas coisas. Mas ainda há muitas perguntas sem respostas nesse meio.

Levantamento projeta impacto de R$ 144 mi. Para o SINTROPAR, pequenos transportadores serão os mais afetados e o custo chegar ao consumidor
Impacto pode chegar à cerca de 144 milhões de reais

Diálogo e previsibilidade

O presidente do Sintropar, Edson Roberto Pilati, reforça que a discussão sobre a reforma tributária precisa considerar as particularidades do transporte no agro e os impactos que mudanças dessa magnitude podem provocar na operação das empresas. “A reforma tributária representa uma transformação importante no ambiente de negócios brasileiro e exige atenção de todos os segmentos. Para o transporte, é fundamental que esse processo ocorra com previsibilidade, permitindo que as empresas se adaptem às novas regras sem comprometer suas operações e seu planejamento financeiro.”

De acordo com o estudo da ABAG, o aumento da carga tributária tende a ser mais expressivo nas operações ligadas ao agronegócio justamente por se tratar de um setor que atualmente conta com tratamentos tributários específicos. Como consequência, parte desse impacto poderá ser incorporada aos custos logísticos ao longo da cadeia produtiva.

“Toda mudança tributária exige um período de adaptação. As empresas precisarão compreender como as novas regras afetarão seus custos, sua formação de preços e seus contratos. Quanto maior for a clareza durante a implementação, mais eficiente será essa transição para o setor”, destaca Pilati.

O que vem pela frente no transporte no agro

Além dos impactos financeiros, a reforma exigirá das transportadoras investimentos em atualização de processos, revisão de sistemas fiscais, adequação tecnológica e capacitação das equipes responsáveis pelas áreas tributária e financeira. Para Pilati, o período de transição será determinante. “O setor sempre demonstrou capacidade de adaptação diante das mudanças regulatórias. Com planejamento, acesso à informação e segurança jurídica, as transportadoras poderão atravessar esse processo de forma organizada, mantendo sua contribuição para o desenvolvimento econômico do Paraná e do Brasil.”

No Oeste do Paraná, onde o transporte de grãos, proteínas, insumos agrícolas e produtos industrializados movimenta grande parte da economia regional, a logística exerce papel estratégico para manter o fluxo da produção. Qualquer alteração significativa nos custos no transporte no agro acaba refletindo em toda a cadeia produtiva e, como lembra o representante do Sintropar, na gôndola do supermercado.

“O transporte rodoviário de cargas conecta a produção ao mercado e desempenha um papel essencial na economia paranaense. Por isso, é importante que a implementação da reforma seja acompanhada por um diálogo permanente entre os diversos setores, buscando soluções que preservem a competitividade das empresas e a eficiência logística”, finaliza Pilati.

Estudo aponta alta de até 414% na carga tributária do transporte no agro; setor acende alerta

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