O mapa do crime rodoviário no Brasil

Como o roubo de cargas migrou para o Nordeste e Norte e passou a mirar alimentos e medicamentos em 2025

Por Gustavo Queiroz

- fevereiro 24, 2026

Imagem meramente ilustrativa de roubo de cargas

O cenário do roubo de cargas no Brasil passou por uma transformação silenciosa, porém profunda, ao longo de 2025. Dados do mais recente “Report nstech de Roubo de Cargas”, produzido pela nstech, empresa de software para cadeia de suprimentos, revelam uma reconfiguração geográfica e estratégica da criminalidade que impõe novos desafios à segurança logística do país. O estudo, que consolida informações das gerenciadoras de risco BRK, Buonny e Opentech, indica que, embora a região Sudeste ainda concentre a maior fatia dos prejuízos, sua hegemonia diminuiu de forma expressiva, enquanto Norte e Nordeste emergem como territórios de risco estrutural e pontual, respectivamente, com um novo foco em cargas de maior valor agregado e essenciais.

A principal constatação do levantamento é a descentralização do crime. Em 2024, o Sudeste respondia por impressionantes 83,2% dos prejuízos com roubo de cargas. No ano passado, essa participação despencou para 68,1%, uma queda de 15,1 pontos percentuais. Apesar da redução, o estado do Rio de Janeiro mantém-se como o epicentro crítico, dividindo a atenção com São Paulo dentro da região.

Enquanto isso, o Nordeste consolidou sua posição como a segunda área mais impactada, saltando levemente de 12,2% para 12,8% e sinalizando que o risco, antes visto como pontual, tornou-se estrutural em polos logísticos estratégicos. O dado mais alarmante, no entanto, vem da região Norte, que viu sua participação nos prejuízos nacionais disparar de meros 0,9% em 2024 para 11,2% em 2025, ingressando de forma abrupta no ranking das áreas críticas e exigindo uma revisão imediata dos protocolos de segurança em rotas antes consideradas secundárias.

Detalhamento

Ao se aprofundar no perfil dos roubos por região, o relatório da nstech desenha um mapa detalhado da atuação das quadrilhas. No Sudeste, as cargas fracionadas (47,4%) e os alimentos (27,1%) continuam sendo os principais alvos, com os prejuízos concentrados nos estados de São Paulo (44,2%) e Rio de Janeiro (37%), o que evidencia a vulnerabilidade dos dois maiores hubs logísticos, industriais e consumidores do país.

No Nordeste, a criminalidade se mostra fortemente concentrada em três estados que somam mais de 75% dos prejuízos regionais, contemplando Bahia (28,4%), Maranhão (24,7%) e Pernambuco (23,8%). A presença marcante do Maranhão, um estado com extensas rodovias e papel crucial no escoamento e abastecimento inter-regional, reforça a tese de que o crime organizado está se instalando ao longo de corredores logísticos vitais para o agronegócio e a economia local.

Já na região Norte, o perfil é distinto e sugere uma estratégia mais cirúrgica. O Pará, sozinho, responde por 62,9% do total sinistrado, seguido pelo Tocantins com 37,1%. Diferentemente das demais regiões, onde a diversidade de produtos é maior, o Norte se destaca pelo roubo de cargas de altíssimo valor agregado. O segmento de eletrônicos lidera as perdas com 25,8%, seguido por itens de higiene e limpeza (7,7%) e cargas fracionadas (7,4%). Essa especialização indica que as quadrilhas locais ou migrantes estão adaptando suas operações para maximizar o ganho financeiro em uma região onde a malha de monitoramento pode ser menos densa que no Sudeste.

Perfil dos alvos

Para além da geografia, o relatório aponta uma mudança crucial no perfil das mercadorias visadas, sugerindo uma transição do crime oportunista para ações mais direcionadas e inteligentes. Embora a carga fracionada ainda lidere o ranking nacional de prejuízos (50,1%, contra 52,4% em 2024), houve um crescimento significativo no roubo de itens essenciais e de maior valor. O segmento de alimentos ampliou sua participação em 6,4 pontos percentuais, saltando de 20,1% para 26,5%. Mais expressivo ainda foi o avanço dos roubos de medicamentos, que mais que dobraram sua representatividade nos prejuízos, indo de 1,8% para 3,9%. Eletrônicos também se consolidaram na terceira posição, crescendo de 6,7% para 7,2%, enquanto o setor siderúrgico apresentou aumento de 1,1% para 2,4%.

A mudança de alvo em 2025 representa um ponto de atenção para o próximo ano”, analisa Maurício Ferreira, VP de Inteligência de Mercado da nstech. Segundo ele, a retração de segmentos historicamente visados, como combustíveis, pneus e eletrodomésticos, pode ser reflexo do aumento da complexidade operacional e da maior adoção de tecnologias de rastreamento e bloqueio nessas áreas. “Isso abriu espaço para o crescimento de outros, como bens essenciais e cargas de alto valor”, completa Ferreira, sugerindo que as quadrilhas estão realocando seus esforços para onde a vigilância é tradicionalmente menor, mas o retorno é garantido, como no caso de alimentos e medicamentos, produtos de primeira necessidade e com mercado consumidor garantido.

Períodos de alerta

Outra dimensão crítica revelada pelo estudo é a dissolução do conceito de “horário seguro” no transporte rodoviário de cargas. Historicamente, a noite concentrava os maiores riscos, e os dados de 2025 confirmam esse período como o mais perigoso, com 30,7% das ocorrências, uma leve alta em relação ao ano anterior. No entanto, a grande mudança ocorreu na madrugada, que viu sua participação cair de 28,4% para 24,1%. Em contrapartida, o período da manhã registrou um aumento expressivo da criminalidade, subindo de 19,7% para 22,4%.

Esses números indicam uma adaptação tática dos criminosos, que passaram a agir com mais frequência durante o horário comercial, quando o fluxo de veículos de carga se intensifica, camuflando suas ações no trânsito pesado e reduzindo a suspeita. “Em uma análise geral, o risco se tornou mais bem distribuído ao longo das 24 horas do dia”, explica Ferreira. “A diferença entre o período mais arriscado (noite, com 30,7%) e o menos arriscado (manhã, 22,4%) diminuiu. Isso sugere que não há mais um ‘horário seguro’, o que obriga as empresas a reforçarem seu estado de alerta durante toda a operação”, complementa.

Essa reorganização temporal também se reflete nos dias da semana. O estudo registrou uma mudança drástica em que a segunda-feira, que era o dia mais perigoso em 2024 com 19,6% dos roubos, viu sua participação despencar para 7,9% em 2025. Em seu lugar, a quinta-feira se consolidou como a data mais crítica, saltando de 17,1% para 21,6%, com as quartas-feiras também em patamares elevados. Para completar o novo quadro de alerta contínuo, o domingo registrou um aumento significativo de risco, passando de 9,6% para 13,4%, quebrando o paradigma de que os fins de semana são períodos de menor atividade criminosa e indicando que as quadrilhas estão explorando janelas de menor fiscalização e tráfego.

Segurança viária

No que tange à infraestrutura viária, o relatório aponta uma inversão na liderança das rodovias mais perigosas. A BR-101 ultrapassou a BR-116, que detinha a maior concentração de prejuízos em 2024, mantendo ambas, no entanto, como as principais zonas de risco rodoviário do país.

Os trechos urbanos seguem dominando os prejuízos, com as rotas internas do Rio de Janeiro (RJ x RJ) e de São Paulo (SP x SP), somadas à rota interestadual SP x RJ, concentrando mais de 63% do total de perdas. Um sinal de alerta adicional vem do surgimento de novas rotas críticas interestaduais, como a BR-010, que saltou de 1,1% para 5,2% dos prejuízos, e a BR-153, que mais do que dobrou sua relevância, passando de 3,4% para 7,3%, acendendo o alerta para a atuação de criminosos em corredores logísticos estratégicos para o agronegócio e o abastecimento regional.

Sinistralidade

Diante desse cenário de risco difuso e em evolução, a tecnologia tem se mostrado a principal aliada do setor. O relatório destaca que a nstech, por meio de sua rede integrada TNS, alcançou uma taxa de sinistros evitados ou recuperados superior a 70%, um recorde sustentado desde 2023.

Como consequência direta, a taxa de sinistralidade, que mede o prejuízo final em relação ao valor gerenciado, atingiu seu menor índice histórico, com uma redução de 17% na comparação com 2024. “Esses resultados são fruto de investimentos massivos em pessoas, processos e, principalmente, em tecnologia, dados e IA”, conclui Ferreira.

Compartilhe nas redes sociais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *